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A viúva Simões
Júlia Lopes
librivox; audiobooks;disputa amorosa; paixões; culpa; loucura; arrependimento; expiação; viuvez
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- 01 - Capítulo 1
Seção 1 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões, de Julia Lopes de Almeida. Seção 1. Capítulo 1º. Apesar de moça e de rica, Avilva Simões raras vezes saía. Dedicava-se absolutamente a sua casa.
Um bonito chalé em Santa Teresa. Vivia sempre ali, inquirindo, analisando tudo num exame fixo, demorado, paciente, que exasperava os seus cinco criados. A Benedita, cozinheira, preta, ex-escrava da família. O Augusto, copeiro francês, habituado a servir só gente de luxo.
A lavadeira Ana, alemã, de rosto largo e olhos deslavados. O jardineiro João, português, homem já antigo no serviço. E uma mulatinha de 15 anos cria da casa a simplícia. Magra, baixa, com focinho de fuinha e olhos pequenos, perspicazes e terríveis. Não era fácil dirigir pessoal tão diferente em raças e em educação.
A viúva, modesta e um pouco indolente para os deveres exteriores, consumia ali, dentro das suas paredes, toda a sua atividade. Em vida do marido frequentar algum tanto a sociedade, mas depois que ele partiu sozinho para o outro mundo, ela encolheu-se com medo que se discutisse lá fora a sua reputação, coisa em que pensava numa obsessão quase neurótica.
Adquirir a fama de menagé exemplar e então levava o escrupulo a um ponto elevadíssimo, para não desmerecer nunca do conceito de boa dona de casa. Levantava-se cedo, percorria o jardim, a horta, o pombar, o galinheiro, censurava o hortelão pelo menor descuido. Via bem até as mais insignificantes ninharias.
A grama precisava ser aparada, as roseiras careciam de poda. Por que não se enxertavam estes ou aqueles pés de fruta? O homem respondia que já tinha deliberado aquilo mesmo. E ela passava adiante, sempre com perguntas ou ordens. No interior era um chuveiro de recriminações.
A cozinha tomava ali horas, passava os dedos nas panelas e nos ferros do fogão a ver se estavam limpos, cheirava as caçarolas, obrigava a Benedita a arear de novo tachos e grelhas, a lavar a tábua dos bifes e o mármore das pias e da mesa. Se havia alguma torneira pouco reluzente ou alguma nódua no chão, detinha-se, exigindo que se corrigisse a falta logo ali, à sua vista.
E era assim por todos os compartimentos, minuciosa, ativa, severa. Lamentava-se da falta de método, que a obrigava a ter em casa tantos criados. Mas se pensava em despedir algum deles, achava-o logo indispensável. A casa era grande e o dia curto para observá-la em todas as suas exigências. A viúva não fazia outra coisa se não mandar.
Entretanto, não lhe sobrava tempo para mais nada. Tinha de vez em quando as suas horas tristes, em que a inteligência se lhe revoltava contra a monotonia daqueles meses que se desfolhavam iguais em tudo, sempre iguais. O corpo cansado não reagia e o pensamento nadava preguiçosamente em ideias vagas, coloridas pelo romantismo da idade, em que as alegrias e entusiasmos da mocidade já não existem,
em que as frieza da velhice ainda não chegaram. Ela tinha uma filha, Sara, que era o seu conforto e a sua agonia. Por causa dela, renunciava aos divertimentos do mundo, exagerando as suas atribuições caseiras. Tinha medo de apaixonar-se um dia, fugia do perigo de amar, de trazer para casa, para
o gozo do seu corpo e da sua alma, um padrasto para a filha, um estranho com quem tivesse de repartir os seus cuidados e as suas riquezas. O seu temperamento aparentemente frio dava-lhe por vezes, momentaneamente, um ar de rija autoridade, muito em contradição com seu tipo moreno, de brasileira. No trato comum era calmo e tinha sempre o cuidado de não trair as suas horas de desfalecimento,
em que lhe passavam pela mente desejos e idílios irrealizáveis. A viúva já não tinha a frescura da primeira mocidade, mas era ainda uma mulher bonita. Era alta e asbelta, tinha um par de olhos pretos belíssimos e uma pele morena delicadamente penugenta e macia. A sua carne já não tinha a rigidez do pomo verde que resiste à dentada e caía sobre
ela todo um ar de moleza, de doce cansaço, que lhe quebrantava a voz e o gesto. Vinha dela um encanto esquisito e delicado que ninguém afirmaria ser da pureza das suas linhas ou da maneira que tinha de andar, de sorrir ou de dizer as coisas. Aos domingos a vida era mais calma. Os criados trabalhavam afincadamente ao sábado em lavagens, polimentos, renovações de
plantas e de flores nas salas e gozavam de lazeres maiores e permissões de passeio no dia imediato. A viúva então respirava de alívio, com silêncio e a ausência dos servos que se revezavam no serviço. Num domingo de junho de 1891, ela sentou-se na sua sala muito fresca e perfumada e, estendida
numa cadeira de balanço perto da janela, pôs-se muito sossegadamente a ler um jornal do dia. Estava num dos seus momentos de melancolia, almejava qualquer coisa que ela mesma não sabia definir. Era a revolta surda contra a pacatez da sua vida sem emoções, contra aquele propósito de enterrar a sua mocidade e a sua formosura longe dos gozos e dos triunfos mundanos.
O que lhe parecia agora um sacrifício, parecia-lhe horas antes uma delícia. A verdade era que a viúva, além do medo de comprometer a felicidade da filha, sentia preguiça de cortar de uma vez aquele sistema recolhido de vida iniciado pelo marido, um pouco ciumento. Os seus olhos percorriam superficialmente todo o jornal, quando de súbito estacaram
num ponto. Por muito tempo não se despregaram de quatro linhas banais, lendo-as e relendo-as, até que o jornal, levado por um de seus gestos lânguidos, caiu aberto sobre os joelhos. Voltada para o sonho, ela continuou imóvel, com os membros laços estendidos sobre as roupagens longas e negras do seu ainda rigoroso luto de viúves.
E pôsse a seguir com um olhar, que o pensamento irradio tornava hora abstrato, hora pensativo, uma barquinha de velas pandas que deslizava lá embaixo, isolada e pequenina na solidão das águas. Estava uma manhã gloriosa, céu azul, cheio de sol, mar de um azul ainda mais denso, pacificado pela doçura da atmosfera.
Pelos socalcos abruptos da montanha, desciam os quintais e o casarío disperso. A grande alegria da luz envolvia tudo, manchas vermelhas de barro, tufos de vegetação, quadros domésticos encerrados entre a brancura de quatro muros caiados surpreendidos do alto, homens trabalhando nas suas hortas, mulheres estendendo roupa ao sol. O azul e o verde enchiam o ar com seus tons fortes.
Água, céu e montanhas, tudo isso a viúva olhava do alto, como se estivesse suspensa no espaço. Seguindo a linha alva de uma praia arriscada além da Bahia, o seu pensamento ia agora em linha reta aos primeiros tempos da sua vida. Mal se lembrava da mãe, um vulto teno e que fugia a sua lembrança, ficar a órfã cedo.
Do pai, sim. Que bom velho, que doce amigo for a ele sempre. A transparência do dia fazia realçar com nitidez todas as minúcias da paisagem, mas os olhos da viúva, afeitos àquele esplendor, não o observavam. Tinha um fluido dourado, vago, de quem olha para as coisas que outros não veem.
Lembranças antigas de pessoas, de palavras, de ideias ou de sonhos, fugidios, apagados ou mortos. Silenciosas, no meio das águas profundas e aniladas, as fortalezas de Santa Cruz e da Laje, viam-se distintamente na sua triste cor de granito, imedecido e velho. Na de Santa Cruz poder-se iam contar as seteiras da casamata como órbitas vazias.
Nos recifes da Laje, a onda, embora branda, punha rendilhações brancas de espuma salitrosa. E lá ao fundo, na barra, como outras sentinelas, igualmente firmes e igualmente poderosas, levantavam seus dorsos redondos, duas ilhas, em tudo semelhantes, como doze irmãos gêmeos. As montanhas sucediam-se, esmeraldinas, escuras, azuladas ou violáceas, conforme o grau de distância e a luz que as feria.
E para além das ilhas, o mar, extendia-se até confundir-se no horizonte, num tom infumaçado e compacto. A areia do jardim rangeu e a viúva voltou para lá a cabeça. Era simplícia, queia lépida de saias engomadas, procurando cravinas para enfeitar a carapinha, já amarrada com uma fita azul.
Quando passou rente a janela, a viúva sentiu o cheiro das suas essências exageradamente impregnadas na mulatinha. Fechou os olhos, sentindo preguiça de ralhar por aquela confiança. A rapariga arbiou ligeira por entre os canteiros e sumiu-se. O barco de vela ia também ligeiro, como uma asa branca cortando o azul, e a moça seguia-o,
pensativa, lembrando fatos. De repente o seu olhar perdeu aquela cor crepuscular que dá a saudade e fixou-se na cidade como se quisesse indagar do que se passava por lá. Surgindo de entre a verdura e a casaria, erguia-se logo embaixo o risonho e fresco, o outeiro da glória, encimado pela igreja branca e pitoresca, contrapondo a sua poesia graciosa
e aldeã a majestade limitada do mar. Todo o bairro do catete com as suas ruas elegantes parecia imerso numa grande paz. A esguia chaminé da City Improvements não sujava o ar com seu fumo, denegrido e infecto. Subia de tudo uma poesia alegre, desde as pontes rústicas de madeira alcatroadas, que mal se viam numa curva de praia até o deslizar da barca de Niterói, que atravessava a Bahia
com a bandeira flutuante na Arré e um rastro de espumarada na Proa. A filha da viúva jogava o croquet com um grupo de amigas no pomar. Mal se ouviam em casa a bolha seca dos martelos nas bolas, mas as risadas das jogadoras alegres. Tinha sido pai, rio grandense robusto e sanguíneo, quem a habituar aqueles exercícios e jogos ao ar livre. Filho de uma senhora alemã e de um negociante português, o Simões, de Porto Alegre,
ele tinha recebido da mãe uma educação viril e uma saúde robusta. E do pai, um pequeno patrimônio com que mais tarde se estabeleceu no Rio, quando já órfão de mãe, o veio acompanhar até as portas do hospício de Dom Pedro II, onde o velho, louco, ainda viveu alguns anos, terrivelmente agoniados. O olhar da viúva passou num voo rápido por sobre o mar, as ilhas, a cidade e as montanhas, e ficou abstrato, voltado de novo aos sonhos, inconscientemente preso ao pão de açúcar. Cabeça da formidável
esfinge que descansa sobre o leito misterioso do mar e o seu enormíssimo corpo de montanha, com as garras sumidas nas águas e a frente sumida nas nuvens. O seu pensamento láia-se voaçando como uma gageira pelo tempo antigo, sem que a vista se desfitasse da pedra rocheada do monte, cortada de grandes laivos esbranquiçados ou escuros, escorregando de cima como se fossem lágrimas. E o pensamento acordado de um letargo em que já asia sepultado havia longo tempo,
corria agora mais doce e velozmente do que o barco de velas lá embaixo, na solidão das águas. Junho espalhava cores luminosas, as primaveras estavam cobertas de pétalas sulfurinas, as paineiras abriam sorrisos cor-de-rosa nas suas grandes flores, nas inúmeras araucários do morro, suspendiam-se estrelas de um verdor condensado, e as rosas embalsamavam o ar fresco, leve e inundado dos corpos. A viúva deixava-se preguiçosamente no mesmo lugar, a ideia longe, a carne afagada pela
doçura inigualável do inverno fluminense e os olhos errando pelo que a natureza pode ter de mais idealmente formoso. O pensamento ia, ia. O Dias, o Luciano Dias, que lindo que amável ele tinha ficado, sempre muito acido, apaixonado, meigo, desenrolando uma voz veludosa, concentrada, acariciadora. Ai, o Luciano, fora quase seu noivo. Luciano tinha sido o primeiro e o mais durador o amor da viúva. Cartas, promessas, juramentos, frases aquecidas na mais ardente paixão, haviam
sido de um para outro nos bons tempos da juventude. Ela era ainda muito criança, ele também, como se amaram. Entretanto, ela o havia esquecido. Só uma ou outra vez, por qualquer acaso, se recordava dele. Supunha mesmo que nunca mais o tornasse a ver e que se por ventura isso se viesse a dar, ela não se sentaria a mais leve comoção. E ele agora, alarmada, só porque ele era na Gazeta a notícia da sua chegada da Europa. Havia dois dias que ele já estava no rio, debaixo do mesmo céu, respirando o
mesmo ar que ela. Quando o encontraria, desejava vê-lo. Uma revuada de saudade trouxe-lhe a alma daquele perfume daquele amor passado. Parecia-lhe que estivera todo aquele tempo à sua espera, como uma noiva extremosa e fiel. Sim, desejava vê-lo, mas tinha receio. Receio. Nem sabia do que, mas tinha-o. Afinal, não houver amado nunca outro homem como amar aquele. O Luciano, por que a deixar a ele? Que história te lui é obrigado a abandonar o seu amor? Diziam no Leviano, volúvel, talvez o tivesse sido.
Que seria agora? Voltaria casado? Pensaria ainda alguma vez nos tempos idos, quando se correspondiam e se encontravam em casa do tio Gustavo, no engenho velho? Ele teria ainda na memória o beijo que ele colocara na face, timidamente, no dia dos anos dela? Teria sabido do seu casamento? Desconfiaria que ele se havia realizado por despeito? Dezenove anos tinham decorrido depois de tudo isso. Parecia-lhe impossível. Dezenove anos já. A verdade, porém, é que a memória do Luciano estava, havia muito,
encaragada no seu coração. E agora, uma simples notícia lacônica e murcha, ressuscitava-lhe na alma a saudade de todo aquele romance passado. O Luciano já não lhe saía do pensamento. Era alto, magro, tinha o cabelo ligeiramente ondeado e os olhos grandes, negros, um pouco melancólicos, talvez. Em todo caso, formosos. E ficou ainda por alguns minutos a pensar nas coisas que leira ou pode ler nesses formosos olhos, lânguidos e pretos. Em que consistirá sua vida depois dessa
encantadora leitura? Arranjos de casa, idas amodistas, passeios inúteis pela rua do ouvidor, estudos de música para figurar nos sarau das amigas, um ou outro verão em Petrópolis, raro. E os cuidados pela educação e saúde da filha, pelo bem-estar do marido e por bem conservar as regalias da vida material de burguesa rica. Dias fáceis, simples, sem comoções que os marcasse. O esposo foi um bom homem, embora genioso e um pouco violento. Ela era grata a sua memória e sentia-se feliz
por tê-lo estimado com sinceridade, fidelidade. Com o jornal caído nos joelhos, a viúva continuava imóvel, misturando na ideia a lembrança da morte do pai com as expressões amorosas do Luciano, o nascimento da Sarah, o dia da partida do namorado e o dia do seu casamento com Simões. A paciência do marido, os sucessos da sua voz nos concertos das nunes, a última carta de Luciano e o primeiro beijo da filha, lágrimas, alegrias, banalidades, coisas que enchem a vida de toda a gente.
Na sua inteligência modesta, todas as miudezas tomavam grandes vultos. A volta de Luciano Dias revivava-lhe a imaginação. Desde a morte do marido que procurava estiolar, ressequir o seu coração de moça, o seu egoísmo maternal absorvia a toda. Não se daria a ninguém, não roubaria a filha nenhum dos seus afagos, nenhum único dos seus pensamentos e dos seus cuidados. Pela sua idolatrada Sarah, deixaria queimar o seu corpo, cegar os seus olhos e despedaçar
a prostração. Perecesse tudo sobre a terra se só a custa desse aniquilamento pudesse o sorriso iluminar os lábios frescos da filha. A viúva caíra numa prostração singular. Por fim, sacudindo o pensamento, procurou reagir e fixar o espírito em coisas diversas. Pensar em Luciano, pra que ele deixara-a sem explicação? Ela casar-se com outro? Estava tudo acabado? A estas horas, ele teria meia dúzia de filhos, uma esposa estrangeira, um lar calmo e feliz. Ela tinha
uma filha moça, a responsabilidade do seu nome e da sua casa. Cada um que seguisse o seu rumo. Olhar para trás seria, além de ridículo, pueril e perigoso. Na estrada da vida, todos os passos que damos deixam vestígios, mas desde que desejemos voltar atrás, já não nos encontramos as pegadas. Tudo se esvai, todas as cenas se desligam, ficando aqui e ali como névoas esgarçadas em pené de as calvas. Uma outra lembrança, uma outra saudade. A vida é assim. A Viúva Simões estava a pensar nisso quando
o Augusto veio entregar-lhe um cartão de visita. Ela leu e quedou-se pensativa. O sangue afluiu-lhe ao rosto, apertou com força nos dedos finos e nervosos o bilhete indecisa, com o olhar chamejante e o lábio inferior apertado entre os dentes. A resposta, perguntou por fim o criado, manda entrar. É extraordinário, murmurou a Viúva Simões. Nunca mais pensei nele. Hoje penso. E ele chega. Aquela coincidência figurava-se ao seu espírito mal educado como que um aviso sobrenatural. Já nem
acordava de que a sua memória fora despertada pela notícia da Gazeta? Luciano. Sim, era ele quem se anunciava. Que vinha fazer a sua casa após 19 anos de ausência e de completa indiferença? Que saudades vinha revolver ou queidilhos acordar? Ao mesmo tempo que estes pensamentos se atropelavam no seu espírito, ela, por um movimento em que entrava tanto de coqueterri como de nervosismo, ergueu-se, apoiou a mão no espaldar baixo de um frutel, empelindo com o pé para o lado a longa cauda do seu vestido de Viúva.
Houve um silêncio. O coração bateu-lhe com força. Soaram passos pelo corredor encerado. Esses passos foram abafados na alcantifa da saleta contígua onde a voz do Augusto indicou. Tenha bondade de passar a outra sala. Ela voltou-se com um sorriso desbotado e viu destacar-se no fundo broseado do rosteiro a figura elegante e correta de Luciano Dias. Ele avançou e curvando-se diante dela. Minha senhora! A Viúva Simões estendeu-lhe a mão que a comoção gelava e ele, galantemente, beijou a
mão que se lhe oferecia. Lá fora, entre os mortais, continuavam as gargalhadas das moças e na doida da luz voavam os pombos por sobre as árvores e o telhado do chalé. Sentados um em frente do outro, a Viúva Simões observava que o Luciano Dias de então era bem diverso do Luciano de outrora. Tinha os cabelos grisalhos, embora fartos, o que lhe dava um novo encanto a fisionomia viril. Já não era esbelto. O seu corpo perdera a graciosa flexibilidade dos 20 anos. Tornaram-se um pouco
grosso. O ventre arredondar-se-lhe e no seu rosto expressivo e simpático havia vestígios de cansadas insônias. Por seu turno, ele analisava a Viúva. Achava com certeza muito menos fresca, mas talvez mais encantadora. Agora tinha a graça consciente, um pouco amaneirada, em todo caso cativante. As faces tinham descaído um pouco, mas o corpo era agora mais airoso que um de antes. Se as olheiras se haviam acentuado e os cabelos negros estriado de um ou de outro fio
branco, ao menos o sorriso tornara-se mais fino, mais inteligente e perspicaz. E para ele, homem de sociedade, no saber sorrir estava toda a arte ciência da mulher de salão. Ao princípio houve um certo embaraço na conversa. Esboçavam-se frases que morriam depressa. Ele não justificava visita. Ela encolhia-se com reserva. Luciano era aparentemente já quase um estranho. Trocaram-se falas banais. Se a viagem tinha corrido calma, se não achava agora o Rio uma cidade feia. Ele respondia
num modo cerimonioso e discreto. E ambos, escondendo com todo o recado os seus pensamentos e lembranças, afetavam indiferença e sossego. Um gesto, um olhar, um suspiro quebram às vezes os mais firmes propósitos. Fios aque parecendo de ouro são de seda. Se lhes querem prolongar muito a tensão, estalam. Foi o que sucedeu. Luciano, depois de um pequeno silêncio, fixando a viúva nos olhos, deu-lhe os pêsames pelo seu luto. Houve um estremecimento. Sem saber em como, de fato,
em fato vieram a falar do tempo antigo. A invocação desses dias de mocidade foi como que um pouco de sol que derretesse o gelo entre ambos. E chegou mesmo um instante em que ele, enlanguecendo a voz e os olhos, murmurou baixo. Ernestina. Era o nome dela. A viúva Simões levantou-se muito vermelha, atravessou a sala até um guerridom que ficava em frente, mudou aí a posição de uma camponesa de biscuit sem perceber mesmo porque fazia aquilo. E voltando a sentar-se perto de Luciano, disse,
olhando para os zigzags da Alcatifa. Simões viu no armazém exatamente no dia da partida. Era muito bom homem, murmurou Ernestina quase a medo. Sim, talvez por instinto eu antipatizava com ele. Perdoe-me se lhe confessem estas coisas. Ela sorriu-se e ele continuou. Tive uma grande surpresa em Paris quando soube do seu casamento. Eu tensionava voltar cedo e julgava vir a
casa ainda solteira. Luciano crivava de reticência essas frases, sublinhando-as com o olhar. Chegou ao ponto de afirmar que se não fosse esse casamento, ele não teria vivido na Europa há tantos anos. Ernestina, atônita, respondeu com visível ressentimento. Mas o senhor foi como adido da legação? Não. Mas que teria isso? Por acaso um adido de legação não pode vir buscar a noiva em Paris? Ainda não éramos... Ernestina suspendeu a última palavra. Noivos? Sim, respondeu ela com a
cabeça. Eu assim a considerava, disse Luciano envolvendo-a com seu olhar de veludo. Que faltava? O pedido ao papai? Ele consentiria, por certo. Mas nem ao menos. Conclua, por Deus. Não recebi nenhuma linha, nenhuma explicação. A sua partida era a significação de um rompimento, foi o que eu entendi. Entendeu mal, não tive coragem de lhe dizer adeus e depois perdoe-me a vaidade que expor em prova o seu afeto. Ernestina baixou a cabeça, subitamente arrependida de ter dado a mão de
esposa aos simões. Lamentava agora em espírito a perda de todo esse tempo em que poderia ter aparecido ao lado de Luciano na Europa, frequentando palácios de príncipes e fazendo ressaltar com os atavios parisiense os seus encantos de brasileira gentil. Afirmaram-me que o senhor ia para sempre, rumorou ela por fim. Calúnias, aposto que fosse o Simões, quem lhe disse isso? Talvez, mas como foi que ele conseguiu fazer-se amar? Era um urso, lembra-me bem, era um urso. Desta vez foi Ernestina
quem murmurou como um queixume. Senhor Luciano, isto não é falar mal, mas sempre gostaria de saber, como foi? O casamento foi feito, meu pai queria, eu sedi. Ernestina não teve coragem de levantar os palácios. Receiou ver erguer-se da sua cadeira de vilude escarlate na grande tela em frente, o marido terrível e ameaçador. Enquanto Luciano lhe dizia quanto tinha sofrido com esse casamento e a espécie de alívio que sentira a sabelã viúva, enquanto ele cheio de sedução se apoderava da sua
mão esguia e branca e lhe dizia que viera da Europa por ela, só por ela. Ernestina trêmula e se apoiava-se da sua mentira, parecendo-lhe sentir os olhos do esposo fixos nela. Casamento feito pelo pai, mentira, o Simões foi aceito por despeito dela com outro, o Luciano, mais nada. O pai não interviera, ficou até surpreso quando o negociante lhe pediu a filha. Em verdade ele, o bom Simões, fora requestado pela moça, o plano fora seu, queria casar, ser rica, vingar-se de Luciano,
que a perseguia sempre nos bailes, nos teatros, em toda parte e que afinal sem uma explicação, deixava para ir para a França. O comandador Simões tinha sido um bom marido, carinhoso, cortês, sempre pronto a dar-lhe tudo quanto ela desejasse, vestidos caros, casa jardinada, mobilhês modernas, vida farta, confortável e doce. Ela tinha consciência disso tudo, gozar a seu modo conforme as exigências da sua educação burguesa. Se não tivesse tido a filha, talvez que a
própria comodidade em que vivia imersa a tivesse feito procurar os gozos efêmeros da sociedade. Mas a sua pequenina Sara prendia-a aos deveres da casa, preocupando-a muito. Então seu pai obrigou-a a casar? Perguntou Luciano numa insistência maldosa. Obrigar propriamente não, aconselhou e eu achei que era do meu dever obedecer. E não se arrependeu Ernestina? Não lhe ocorreu nunca a memória, a lembrança de alguém que sofreria muito com seu casamento? A viúva Simões
olhava, alisando com a mão a lam preto de seu longo vestido, com teve o desejo de contar quanto tinha chorado na manhã do casamento com a lembrança de Luciano. Ocorreu-lhe também o constrangimento que tinha sentido no dia seguinte pelo marido, vendo-o comer com a faca ao almoço. Vieram-lhe a mente cenas desligadas que ela repelia sem atinar com uma resposta. Luciano aproximava-se dela, envolvendo-a com a sua voz quente e o seu olhar macio e caricioso, ali mesmo, bem em frente às barbas
fartas e ruivas do comandador Simões. As suas palavras escorriam como o mel de um favo. Ernestina, sempre de cabeça baixa, tinha o sorriso paralisado, sem coragem de pôr um dic a aquela viúva perigosa. Ele ousava queixar-se de ter sido esquecido. A viúva não protestava. Entretanto, lembrava-se bem. Nos primeiros meses de casada, aborreciu o marido e disfarçava mal esse sentimento. O seu sonho teria sido casar e partir. Ir a Paris, ver Luciano, tratá-lo com desprezo, fingir-se feliz.
O marido opôs-se a viagem, um único desejo em que a contrariou, expondo-lhe razões de comércio e fortuna. Sair do rio era impossível, então. Prometeu que mais tarde percorreriam o mundo. O tempo e a convivência desvaneceram o desamor da esposa. O nascimento de Sara acabou de solidificar a afeição de Ernestina pelo marido. O pensamento de ambos convergia para a pequenita. Tinham ambos o mesmo cuidado. Encontravam-se ao mesmo tempo a beijar o mesmo rosto ou a embalar o mesmo berço.
As suas conversações mais intimamente doces eram a respeito da Sarinha, vendo-a brincar dos joelhos de um para os joelhos do outro, a dizer com igual ternura, papai ou mamãe. Essas coisas iam voando o espírito da viúva, enquanto Luciano lhe dizia que viera de Paris por sabê-la livre. Do contrário, lá estaria ainda. Falando sempre doce e mansamente, ele pegou-lhe na mão e retirou muito devagar a aliança de ouro que ela ainda usava no dedo. Ernestina consentiu. O anel rolou para o chão.
Sempre julguei que o senhor voltasse casado. Não se lembrava que os homens são menos volúveis do que as mulheres? Oh, e Ernestina riu-se. Temos uma prova em nós mesmos. Ernestina, já menos perturbada, perguntou fixando em Luciano um olhar claro e sério. Diga-me uma coisa, com toda franqueza e lealdade. Por que saiu do rio sem me mandar ao menos um bilhete, uma palavra qualquer de despedida? Mas eu já lhe disse. Não, interrompeu Ernestina. A razão apresentada não é aceitável, porém provo o
meu afeto. Isso não é coisa que ocorra ao namorado de 20 anos? Incompletos, acrescentou Luciano com sorriso. De mais a mais, realmente éramos muito crianças. Não fuja a minha pergunta, lembraremos depois. Que maldade! Por que não há de acreditar no que eu disse? Quis pôr à prova o seu amor. Além disso, meu pai, note que meu pai é que era secretário da legação e não eu. Impôs-me essa viagem. Negócios de família complicados e que nem mesmo a gente, depois de passar do tempo,
sabia explicar. Eu era o secretário do meu pai. Foi isso, naturalmente, o que fez com que lhe pensassem que eu tinha ido como adido. E ainda há pouco não esclareci esse ponto para não interrompê-la. Bem, vejo que o senhor é teimoso e não quer dizer o motivo de um rompimento tão inesperado. Seja, e mesmo agora, o que nos importa isso? Ficou zangada comigo? Muito. Perdoa-me. Ernestina teve vontade de dizer. Esqueci-o, mas calou-se. Toda a sua energia e resolução tinham
se despedaçado. A senhora casou muito cedo, com 18 anos incompletos. Quantos meses depois da minha partida? Cinco. Que barbaridade! Riram-se, lembravam-se juntos do passado. Tinha começado a amar-se em casa de um tio de Ernestina. Ela com 15 anos, ele com 18. Uma criancice de que Ernestina se teria esquecido se seu casamento não tivesse sido feito por despeito disso. Luciano era então estudante de medicina, o pai morava em Minas e ele hospedava-se em casa de um negociante, Gustavo Ferreira,
no Engenho Velho. O negociante era o correspondente e o amigo mais querido do pai de Luciano e era também o irmão preferido do pai de Ernestina. Isso ligou-os. O tio Gustavo, como ambos diziam, não tinha filhos. A mulher passava a vida doente, sempre queixosa e asmática. No entanto, ela vivia ainda e ele tinha morrido de um ataque epoplético. Seu pai, perguntou Luciano, morreu. Daquele tempo só vivem a tia Mariana e a Josefa. Porque Josefa, aquela mulata lá de casa que ele fazia muita guerra,
uma baixa queixuda. Isso mesmo. Tenho ideia sim que interceptava as minhas cartas. Exatamente. Deve estar muito velha. Não. Como o tempo passa. E que saudades o senhor veio trazer-me da minha mocidade. Ouvindo de longe uma gargalhada argentina e fresca, a viúva Simões disse. Minha filha, é preciso que a conheça. Vamos ao jardim. Uma filha, tornou Luciano com tristeza. Aí está uma lembrança do outro que me amargura sempre. Ela é um anjo. Tanto pior. Ernestina
tornou-se muito séria e o seu olhar, até aí inefavelmente doce, ficou de repente áspero por ofendido. Vamos, desejo mesmo cumprimentar-me do Moisele Simões, murmurou Luciano, emendando o ferro e demonstrando interesse pela menina. Pois sim, mas prometa-me. O quê? Não é nada, vamos. E a viúva passou adiante. A sala tinha portas para uma varanda de ladrilhos cor-de-rosa e colunas finas de ferro bronzeado. Daí descia-se por três degraus baixos e muito largos para o jardim. O
sol de junho iluminava tudo com uma luz risonha e nos largos canteiros reuvados as flores rubras e as asadinhas pareciam gotejar o sangue nos seus braços espinhosos. A viúva Simões ia adiante, erguendo a calda do vestido preto. Luciano admirava-lhe a graça do andar e a cor levemente morena do seu pescoço roliço e delicado. Dando volta ao jardim, foram parar a uma segunda grade. A dona da casa abriu e entraram no pomar. Aí, num espaço bem varrido, nivelado e todo guarnecido
de dor por bambus, é que Sarah e as amigas jogavam o Crockett. No momento em que entraram, exatamente quem jogava era a filha de Ernestina. Não lhe viram a cara, estava curvada para adiante. O vestido arrastava na frente, mostrando-lhe atrás os tornozelos finos e as meias pretas riscadas de cinzento. A mãe deixou-a jogar e ao ver lerger-se, bateu-lhe levemente no ombro. Sarah voltou-se. Luciano observou-a com curiosidade.
Mas já é uma moça? Observou ele atônito. Eu não lhe disse que estava velha? Perguntou Ernestina com sorriso. Olhando atentamente para Sarah, Luciano resumiu assim o seu juízo. A cara do pai. Ponham-lhe umas barbas vermelhas e aí teremos o comandador Simões. Sarah não era alta como a mãe, sentia a gentileza do seu porte aristocrático. Tinha a cabeça um pouco grande e forte, a testa arredondada, os olhos castanhos inteligentes, o cabelo de um louro ardente e luminoso, a boca
risonha, os dentes sãos. O que encantava nela era o bom ar de saúde, de inocência e de alegria que semanava do seu olhar franco, da sua pele rosada e fresca e da sua boca simpática. Pareceria um paz vestido de mulher se não tivesse uma expressão tão ingênua e se os cabelos não lhe cobrissem as costas numa trança tão longa e tão farta. Falava alto e com quanto em tom autoritário, a sua voz era doce e clara. Ganhara a partida e estava vitoriosa. Estendeu a mão a Luciano como se fosse
um amigo velho, com uma franqueza descuidada. Empelindo para trás o cabelo que lhe voava para o rosto, convidou as amigas para outra partida, mas as companheiras estavam cansadas e ela começou a juntar o aparelho numa caixa contando ao mesmo tempo a mãe o fiasco de Georgina Tavares. Uma graça! A Georgina era uma moreninha galante, filha de um advogado da vizinhança e a maior amiga de Sarah. As outras eram quatro sobrinhos do doutor Tavares, filhas de um médico do Espírito Santo e estavam
com uma temporada com a prima. Vestiam mal e encolhiam-se envergonhadas umas de encontro às outras. Ernestina voltou para dentro em companhia de Luciano. Atravessaram calados o jardim. No primeiro degrau da varanda, a viúva perguntou parando de repente, com a mão sumida na trepadeira que envolvia uma das colunas. Que tal achou minha filha? Ele moveu a cabeça com sorriso, estendeu depois de uma visitação, uns beiços em bico e não respondeu. Quer dizer que lhe desagradou. A senhora parece
ser uma dessas mães excessivas a quem não se pode dar uma opinião franca dos filhos? Engana-se, respondeu secamente a viúva. O melhor é não perguntar nada. Ao contrário, eu quero saber qual é a impressão. Tenho empenho nisso. Manda? Exijo. Então aí está. Acha feia. Feia? Mas em que? Em tudo, menos no cabelo, que assim mesmo tem o defeito de ser um pouco avermelhado e na cor da pele. Admira-me como não tem sardas, que são quase uma consequência do tipo. Antipatizou com ela, é o que
eu acho. Não, bobiciou Luciano vacilando. Sara é um anjo, muito parecida com o pai. Ora, antes tivesse saído a mãe, concluiu Luciano, seria muito mais formosa e menos, e menos? Quero dizer, mais agradável para mim. Ernestina, apesar dos esforços por encobrir a tristeza que essas palavras provocavam, deixou a transparentecer e Luciano despediu-se com uma certa frieza, como se estivessem amoados. Fim da sessão 1, gravado por Raquel Moraes.
- 02 - Capítulo 2
Seção 2 de Aviuvas Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Aviuvas Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Seção 2. Capítulo 2. Então, você foi à Santa Tereza? Perguntou Rosas Aluciano Dias.
Fui. E então, que tal? Ainda fresca, bonita? É bonitona, é? Conversavam a cerca da viúva Simões.
O Rosas acabava de jantar com um amigo regaladamente, na sua saleta do pavilhão, no Flamengo, com vista para o mar. Estavam sós. O criado levaram ao café e eles tinham acendido os charutos. A tarde caía serena e bela num esmaecimento de tons delicados.
Diante da porta aberta do pavilhão, a rua larga e arenosa do jardim estendia-se com uma brancura pálida, sem brilho. E nos largos canteiros reuvados, batidos de sombra, as palmeiras ornamentais abriam muito as folhas, com enormes mãos espalmadas.
Entre o verdor enegrecido das plantas, sorriam de vez em quando rosas claras, cor de carne moça. E os arbustos das asaléias brancas destacavam-se muito. Todos cobertos com as suas flores de neve. Do outro lado, pelas janelas abertas,
vinha o marulho das ondas a morrerem na praia. Já tenho licor, disse Luciano respondendo a um gesto do Rosas que tornara a encher o seu cálice e passava a garrafa ao amigo. É bom. Isto reanime e conforta o estômago. E depois de um trago em que esgotou o cálice?
Pois você fez mal em ir a Simões. Pode comprometer-se e depois não ter remédio, se não... Casar? Casar. Qual?
Veja o que aconteceu comigo. O Rosas, homem já dos seus 50 anos, gordo e calvo, cansado do seu viver de solteirão, tinha se casado. Para um ano depois, separar-se da mulher com um grande escândalo. A pobrezinha tinha sido uma cabeça tonta e bonita.
Passar a mocidade a ler novela dos jornais e a fazer crochê à janela da casa do pai, em São Cristóvão. Montepan lançou-lhe no espírito a semente da inveja das fidalgas loiras de mãos de cetim e olhos de velho do turquesa. O crochê dava-lhe tempo para remoer mentalmente cenas de amor adútero
deslizadas nos parques alfombrados de castelos provencianos. Quando casou, Rosas tinha ainda todos os gostos do negociante pacato e burguês. Como isso fosse por 1890, no período efervescente do jogo da bolsa, em que os luxos se assanharam até o desmando, não custou muito transformá-lo. Foi ela, portanto, quem o acostumou àqueles jantares no pavilhão,
quem o obrigou a comprar carro, a frequentar o lírico, até que um belo dia... Zaz! Lá se foi mar em fora com o primo dele, levando todas as joias e deixando por despedida algumas linhas mal escritas. Entretanto, aquele golpe não o desesperou. Tinha mesmo facilidade extrema em eludir a ele.
Chegava a ponto de constranger os amigos. Um deles notou-lhe um dia. O homem! Há certas infelicidades que se escondem. Ao contrário, respondeu-lhe o Rosas. Há certas infelicidades que devem ser espalhadas para servirem de exemplo.
Lá tinha o seu modo de ver. Há muitos meses que não vejo as simões. Prossegui o dono da casa, fincando o cotovelo na mesa e erguendo até a altura da calva a mão gorda e curta, em que luzia uma enorme brilhante.
Eu, agora, já hei de morrer solteiro. Disse Luciano, pausadamente. Conheci por alguns anos a vida de família. Fui tão feliz quanto podia ser nas condições e que me achava. E isto bastou-me.
Alguma ligação? Sim, uma rapariga por quem me apaixonei. Vivemos quatro anos juntos. Hei de ter sempre saudade desse tempo. Ela era linda e era um anjo.
Um anjo com asas para fugir depois de quatro anos de aventura, não é assim? Não. Foi você que a deixou? Morreu. Ah, houve um instante de silêncio.
O Rosas prosseguiu. Sabe que eu estava mal com os simões? Não, por quê? Negócios. Ouvi dizer que ele era um homem mau.
Não era tal. Por mim não sei nada. Eu mal o conheci. Ele era um pouco irracível e muito extremado nas suas opiniões. Mas era o que se pode chamar homem de bem.
Na questão que tivemos, eu mesmo confesso, hoje bem entendido, que a razão estava do lado dele. Então, o que quer? Tive mal aos conselheiros. Essa que é a verdade.
Ele era português, não era? Não, rio Grandense. Filho de alemã e de um negociante que morreu doido aqui no hospício. Ainda o conheci. Os simões tinham puxado ao tipo da mãe, era vermelho e ruivo.
Morreu de congestão. Já se esperava isso mesmo. Era um touro. Pescoço curto, cabeça grande. Ah, a filha parece-se muito com ele.
Deve ser violenta e forte. É feia. Tem uma filha só? Só. Pois os simões não era mau homem.
Um pouco curto de ideias. Se a menina sair ao pai, não será atormentada pela inteligência. Agora diga-me, acerca do comportamento de Ernestina, nunca se falou? Nunca ouvi nada. Gozou sempre de boa reputação.
Isso a meu ver não tem valor. A mulher estão sonças. Que diabo, nenhum amante, hein? Nenhum que me conste. Os simões deixou grande fortuna?
Não sei. Calcula-se uns 400 contos, talvez. Não é má soma. Pois se não fosse o demo da filha, quem sabe? Talvez que realmente eu caísse na asneira de casar.
Você não quis quando ela era moça e então agora? Quando era moça e pobre. Mas o que me metia mais medo ainda assim, não era a pobreza. Eram os olhos dela. Os olhos?
Receava que viesse a suceder-me o que sucedeu a você. Ernestina tinha uma beleza provocante. De espantar maridos. Pois foi uma boa mulher. Essas coisas enganam.
A minha era mansa como um cordeiro, olhos postos no chão. Parecia um anjo. Caí como um patinho. E aí está o resultado. Ora, estou livre?
Isto de casamento é o diabo. Evita a santa Teresa. Não há perigo. Preciso de alguma coisa para entreter o tempo. Trabalha?
Em que? Perdi o costume? Depois o que tenho dá-me para viver? Luciano levantou-se, foi à janela enquanto Rosa sacudia com o dedo a cinza do charuto. Sabe?
Disse Luciano sem se voltar e prosseguindo logo. Estou encantado com a minha terra. Que beleza. Homem, não é isso que costuma dizer quem vem da Europa. Ora, onde viu você nunca uma cidade com vistas destas?
E apontou com gesto largo a Bahia em frente. O Rosas levantou-se e foi encostar-se ao peitorio ao lado do outro. Ficaram silenciosos vendo os últimos raios do sol iluminarem com uma luz policroma parte do mar. De um lado tremulava uma rede malhada de ouro cintilante, mas além uma nuvem vermelha refletia nas águas um tapete de rosas.
E em outros pontos apareciam manchas violáceas e sombrias que iam crescendo e movendo-se na onda. Na areia clara destacavam-se velhas pedras escuras em que as algas se apegavam como aranhas secas. Vamos dar um giro? Interrompeu Rosas pouco afeito às contemplações da natureza. E saíram os dois.
Fim da sessão 2, gravado por Raquel Moraes.
- 03 - Capítulo 3
Seção 3 de Aviuvas Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Aviuvas Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Seção 3. Capítulo 3. Luciano e o amigo desceram pela rua do catete conversando e devagar. Um exercício de boa digestão.
O Rosas bamboleava o corpo curto e grosso, com o vestom azul aberto na frente e as mãos sumidas nos bolsos. O Luciano ia ao lado, distraído, com os braços para as costas e o bengalão suspenso entre as duas mãos. Os bondes passavam cheios.
Em uma ou outra casa, viam-se morsas à janela, quase todas bonitas, bem vestidas. Ia caindo docemente à noite. Um profeta corria de lampião a lampião com a blusa de suarte flutuante, o varal erguido e o chapéu enterrado até as orelhas. A rua tinha trechos menos tumultuosos, de versão aristocrática, onde as casas não
se abriam tão burguesmente a poeira e a curiosidade de fora. Mas logo em outro quarteirão, tudo mudava, aspecto de pessoas e de coisas, como se se estivesse dado um salto para outro bairro. Então, em vez de prédios grandes, de cortinas cerradas e plantas ornamentais nas entradas, eram as casas apertadas, desiguais, e de vez em quando, ou um frege trezandando a azeite
sardinhas, ou uma quitanda apertada, cheirando a fruta apodrecida e a hortaliça murcha. Nesse ponto, andavam crianças aos magotes pela calçada, de mãos dadas, embaraçando os transeuntes. A porta de um barbeiro, ou de outra qualquer casa de negócio sufocada por prédios maiores, conversavam algumas pessoas com muitos gestos e poucas risadas.
Luciano prestava atenção às mínimas coisas, querendo em vão comparar o aspecto dessa rua de então com o do tempo em que aí tinha morado, havia largos anos. A diferença estaria na sua maneira de olhar? Perguntava a ele a si próprio. O Rosas conhecia meio mundo, morava por ali, havia muito, por isso cumprimentava quase toda
a gente. Quando fazia a alguma senhora chique, Luciano não tardava em perguntar-lhe quem é. Pelo meio da rua, rolavam maciamente os carros particulares, de volta do passeio a Botafogo e em demanda dos lares. O Rosas citava o nome das donas, gente boa, frequentadora do lírico e de Petrópolis.
O Luciano pedia-lhe que o apresentasse. Ele não conhecia ninguém e era sociável, afeito às salas e às conversações com as senhoras. O Rosas sorria. Você está-me com cara de conquistador.
Ora, hoje apresentar a gente um amigo como você em casa de outro é um perigo. Enfim, não direi que faça-se de puritano. E sou, desde que me sucedeu, o que você sabe. Então nem se fala. Ora, adeus.
Nisso o Rosas apontou para um carrinho elegante e leve que vinha da cidade, guiado por uma moça de claro, airosa, bem sentada na almofada. Como a luz já fosse escassa, Luciano não a pôde ver bem. Atrás dela desenhava-se a silhuete de dois lacaios empertigados. Quem é?
Inquiriu Luciano, reparando para um gesto de Rosas. Clara Silvestre, uma ex-atriz do recreio. Parece chique. É uma das mais bonitas. Aí, apresenta-me.
Sem escrúpulo. Houve um sorriso. Passavam pela esquina de Santo Amaro. Luciano parou, mostrando um prédio em frente. Já morei naquela casa.
Era então um rapazinho, andava as voltas com exames de francês. Você não foi nascida e criada em Minas? Não. Ali, ao lado, era uma padaria. E aqui, nesta esquina, um armazém.
Já as reminiscências vão tomando um caráter mais positivo. Mas que diabo? Não me lembra que seu pai tenha morado aqui? Pois não. Foi só depois do meu nascimento que meu pai se resolveu a ir para a província.
Voltávamos de lá por doença de minha mãe. No fim de 12 anos, ela morreu. Meu pai regressou para a província. E eu fui então morar com o nosso correspondente, o Gustavo Ferreira. Tio da Simões?
Sim, tio da Simões. Conheceu? Morreu, sabe? Disse-me a sobrinha. Ah, ela pulou a corrente de todos os sucessos.
Falaram do passado. Um pouco? Deve ter sido linda, Simões. Esplêndida. E depois viva, alegre.
Parece muito mudada. Era de me ter medo. Hoje não é a mesma. Ainda assim, não lhe digo nada. É chique.
Agora, fora de casuada. Não se ponha a brincar com o fogo inutilmente. A Simônia é séria. Você deve evitar a convivência, visto não querer casar. Conheço bem a nossa sociedade.
Isso está feio. Que mania. Tome sentido. Que diabo. Enestina é uma viúva.
Não é mulher de se deixar iludir. Será capaz até de me iludir a mim. Qual? E quer saber uma coisa? Em todo este desmando em que vivemos, eu não culpo as mulheres.
Culpo os homens. Elas são boas. Ora essa. Se você quer a Simões, case-se com ela. Isso não.
Então não volte à Santa Tereza. Eu tenho muita prática. Conheço bem as mulheres. Pode enganar-se uma vez. Agora você não está em Paris.
Parisiense ou não, a mulher é sempre a mesma. Pois sim, ouço o meu conselho. Ora. A noite tinha caído completamente. Durante a travessia do Cais da Glória, sentiram frio.
O Rosas falava sempre. Luciano mal o ouvia, com o pensamento afastado. Atravessavam agora a Rua da Lapa. Moças cheias de fitinhas e de papelotes recostavam-se ao peitoril das janelas baixas. Na calçada, os moleques assobiavam o chegou, chegou, chegou.
E os baleiros rossavam pelas crianças oferecendo-lhes balas. Ali não podiam conversar. A calçada era estreita, muito atravancada. Luciano caminhava atrás do Rosas, reparando para os tipos, admirado de ver tão poucas pretas. Uma ou outra mulata cruzava-se de vez em quando no caminho, carregada de essências e de laços,
muito espartilhada, exagerando a moda do vestido e do penteado. Onde se teriam metidos os pretos do ganho, os minas, de cara retalhada, a rodilha na cabeça e cesto na mão. E o fervilhamento de crioulas na rua, de vestido de riscado e manga curta, mas a quantidade de formosas baianas muito limpas, com seu belo traje flamante, a camisa de renda, o turbante aeroso, o pescoço e os braços cheios de contas de vidro e de corais, a manta riscada,
a tira-colo, a saia muito franzida, rebolando aos movimentos dos sólidos quadris carnudos, e as chinelinhas taqui-quitaki nas calçadas. E os tins, de trança longa, roupa de algodão grosso, vara no ombro, gigos pendentes, percorrendo as ruas num passo apressado e ferindo ar com sua voz achatada. Camalhão, peixe. E os crioulos, que vendiam calçado em caixas em vidra assadas, apregoando numa melopeia grave e prolongada. Sapatooo! E as gôndolas, de ligenças desengonçadas,
dispensas sobre as suas quatro rodas altas, rodando aos solavancos sobre os paralelepípidos, num fracasso tremendo. E os meninos vendedores de cana, entoando musicalmente, vai cana, simhá, vai cana, simhá, vai cana, simhá, bem doce. E os carregadores de piano, empunhando o caracaxá tradicional, que vinha desde longe num rumo inconfundível. Que vento dispersar aquela parte. Para que país teriam fugido todos aqueles tipos a que se habituaram na infância. Agora só
via caras estrangeiradas. Muitos italianos, turcos imundos, quase toda a gente branca, muito luxo, muitas equipagens, cavalos de raça guiados por titulares com lacaios e grumos ingleses, muitas toaletes vistosas, muitos brilhantes e uma variedade infinita de cores nas bandejas de balas e nas cabeças das burguesinhas pobres, cheias de papelotes. De dia para dia as coisas mudam de aspecto e muda a observação dos olhos que as veem. Luciano sentia saudade de sua maneira de ver e de
sentir de outrora. Então as impressões ficavam-lhe sem que o espírito as analisasse. Agora submetia junto a crítica e a comparação estúpida e fatigante. Sem conseguir fixar bem no espírito o caráter especial do lugar e do povo por que passava. Tinha chegado ao largo da Lapa e encaminharam-se para o passeio. O Rosas retomou o fim da conversa. Para ele era ponto de fé. A felicidade no lar era criticada pelo marido. Somos uns viciosos, acrescentava ele pensando em duas coisas.
Roleta e mulheres. Ainda no Rio não é nada, mas nas províncias nós damos às nossas esposas o luxo que podemos, mas não as associamos aos nossos empreendimentos, não as fazemos entrar em nosso espírito. Compreende você? São objetos de luxo e de comodidade. Também percebendo isto mesmo nas suas formas delas, desde que não nos faltem botões na roupa branca e o almoço a hora certa, não tem muito escrúpulo em nos retribuir as mentiras que lhes pregamos. Homem, você é um original,
se outro o dissesse. Isto não quer dizer que a maioria das famílias aqui não sejam honestíssimas. Honestidade é palavra que não se usa em países civilizados. O Rosas não respondeu. Seguiram pela estrada da esquerda até o terraço, fugindo ao povo que se aproximava do restaurante à espera da música. E foi então à luz das estrelas que tremulava lá em cima entre flocos de nuvens e ao marulho das ondas cá embaixo que um desfiar de anedotas de parte a parte os obrigava muitas
vezes a parar e a torcer em si de riso. Uma hora depois, despediram-se. O Rosas ia para um voltarete de amigos e Luciano para o teatro. Fin da sessão 3, gravado por Raquel Moraes.
- 04 - Capítulo 4
Seção 4 de Aviuvas Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Aviuvas Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Seção 4. Capítulo 4. O caráter de Ernestina ia se transformando rapidamente. Depois da visita de Luciano, ela passou uns dias muito sombria e ríspida,
indignada consigo mesma contra as ideias que lhe iam nascendo como rebentões novos em tronco maduro, diversas em tudo das antigas que se despegavam como folhas secas. Enraivecia a lembrança da sua fraqueza e condescendência, deixando Luciano recordar coisas perigosas. Ah, se pudesse voltar atrás, recomeçar todo o tempo da visita. Como se faria impassível, serena e austera.
As coisas agora eram bem outras. Ainda há pouco tempo ela não saía de casa e impunha à filha rigorosamente todos os preceitos e tristezas do luto. Eram então baldados os convites da Georgina Tavares, que morava ao lado e que não faltava com os pais, a instâncias de oferecimentos. Nada.
Sara tinha muitas vezes desejo de ir a uma ou outra suaré, mas respondia gaguejando que não, à espera que a mãe consentisse. Enestina conservava-se muda e Georgina retirava-se desapontada e triste. No dia seguinte, esta corria logo cedo a vazar nos ouvidos da amiga as suas impressões do baile ou do teatro, e era então um churrear de risadinhos sufocadas e de exclamações por coisas apenas entrevistas por uma,
nas descrições muito falhadas e entrecortadas da outra. Sara perguntava pelas toaletes mais lindas do baile, e Georgina explicava-as com uma minúcia surpreendente. Assim o enredo dos dramas. Que de lágrimas rebentavam dos olhos de ambas e que desfolhar de risos tinham seus lábios de meninas, quando Georgina trasladava para aquele sereno canto do jardim os gritos de agonia ou as frases jocosas que ouvira no palco.
E era só, meu Deus, você não imagina, que coisa bonita. Conte o resto, suplicava Sara com um olhar ávido e ouvidos bem abertos. E as cenas atropelavam-se. Georgina ia e vinha, muito ligeira, esquecia minúcias que ligavam o entrecho, voltava atrás, parava de repente para um detalhe, descrevia os vestidos das atrizes e atrapalhava-se a miúda embrulhando cenas ou repetindo frases.
Às vezes, num ou noutro ponto, confessava. Aqui não entendi bem. E outras vezes então, a sua imaginação colaborava em grande escala com o autor da peça, descrita e ampliada. Sara impacientava-se, tirava por conclusões, farrapo a farrapo, o drama inteiro. Como deveria ser lindo.
Na manhã seguinte a uma récita do lírico, Georgina ia mais cedo para a casa da amiga. Havia mais que contar? Em primeiro lugar, descarnava-se o libretto, depois o cenário. Georgina movia o seu corpo leve e delgado, explicando com muitos gestos. A cena representava o mar ao fundo, à esquerda uma igreja com torres, sino e tudo.
Aqui ia apontava para um canteiro de jurujubas. Havia uns degraus. Ali, outro canteiro. Uma casa grande com portão em arco. À direita, as ruas.
Quando a Teodorini entra com um grande véu branco pelo rosto e o vestido de noiva a rastos, a gente sente um calafrio que não se pode explicar. Como podia, Sara encolhia os ombros imitando insensivelmente o movimento da outra. Que pena que você não ouça Teodorini. E a música?
Ah, Georgina levantava embevecidas os olhos ao céu. Sara suspirava, lamentando não ter ouvido e visto tudo aquilo. Passava depois a descrição dos espectadores? Estavam muito desconhecidos? O Breves foi falar conosco no intervalo.
Perguntou por você. O Breves era sempre o primeiro mencionado por fazer a corte a Sara. Que me importa o Breves e o Raul? Raul fazia a corte a Georgina? Estava também.
Olhou muito para você? Olhou. Eu fingi que não o via por causa de uma mãe. Seguia depois a relação dos camarotes. As mendes, duas de azul, duas de cor de rosa.
Já um pouco amarrotadas pelos anos. Mas com muito pó de arroz e alguns brilhantes ainda faziam vista. O pai, em pé, atrás delas, com as barbichas brancas espetadas e a sua eterna posição de braços cruzados, parecia um lacaiu. A Helena Gomes estava muito chique, toda de branco, com pérolas no pescoço e violetas
na cintura. O marido, que tolo, deixava de olhar para ela para se derreter para a prima, que é uma lesma. Que prima? Para a dona Catarina.
Ah, aquela que você me apresentou no hotel da Boa Vista? Essa mesma. Está seca e com umas olheiras que lhe comem a cara. Horrível. A Helena vinga-se.
Isso é verdade. Lá estavam os ceixas, no mesmo camarote. Assim mesmo tem sido fiéis. Riam-se. Comentavam tudo.
O focinhozinho inteligente de Georgina farejava todo o teatro, descortinava sorrisos que partiam de uns para outros, leves e sutis, como voar de arminhos soltos. A ingenuidade dos quinze anos era uma história nessa criatura frequentadora da sociedade em que todos os vícios se expõem tanto à luz. Curiosidade e perspicácia, sim, tinha de sobra e quando comentava erros alheios, punia
sempre os delinquentes, afirmando, quando eu me casar, não hei de incorrer na mais pequena falta. Partiam quase sempre dessa frase no batel de ouro do futuro, a fazer e desfazer sonhos, até que se separavam com dois beijos. Antes disso, ainda, num lamento por não ter visto mesmo que Georgina, Sara suspirava.
Se papai fosse vivo, era o ponto final. Ernestina, que sempre fora inflexível às solicitações da filha para saídas e divertimentos, mudara completamente de parecer depois da visita de Luciano. Agora, ela não sabia mesmo porque sentia a necessidade de andar, divertir-se num ambiente diverso do seu.
Pouco a pouco, com a tardança que Luciano punha em fazer-lhe a segunda visita, esse desejo aumentou, caracterizando-se pela vontade que tinha de o encontrar na rua, num jardim, numa sala, em qualquer parte, como obra do acaso. Ernestina lembrou a filha toaletes novas, como pretexto para descer a cidade. Era sua primeira tentativa.
Sara exultou. Estavam ao almoço, comia com apetite, conversando numa camaradagem isonia. Bonito sol, dia fresco, belo passeio. Logo ali fizeram uma lista de coisas precisas. Ernestina disse à filha que não se vestisse antes das duas horas e dirigiu-se para o seu
quarto. O diabinho da simplícia é que sabia bem o lugar de todas as coisas e veio pressurosa ajudar a ama, observando a desguélia, como se lhe estudasse os movimentos. Começou a dispor das roupas para a saída com maior esmero. Os crepes do luto passavam do guarda-vestidos para cima da cama, onde Ernestina os examinava
com cuidado. A simplícia ia e vinha, sumindo as mãos magras nas gavetas, retirando as roupas brancas e os fichus, lenços e meias de seda. De vez em quando, num giro rápido, ocultava no seio sutilmente um rolo de fitas, sem que a viúva desce por tal, mas vinha logo estender na cama o leque, as luvas, o véu, a saia
de seda, até o chapéu de sol, que ela escovava como inúcia. Tudo pronto, Ernestina mandou a sair. Mas a rapariga achou o jeito de se chegar para o guarda-vestidos ainda escancarado e de exclamar com modo ligeiro. – Iaiá é a moça de mais gosto que há em Santa Tereza.
É preciso o Iaiá se casar outra vez para usar seus vestidos claros. Ih, Iaiá fica bonita com roupa clara. Ernestina corou e, vendo os olhinhos da mulata fixos nela, disse com as peresas – vai-te embora. A simplícia saiu e a moça fechou-se por dentro.
– Fui então para outro quarto contigo onde estava o tocador. Sentou-se em frente ao espelho e ensaiou penteados novos, pacientemente, a ver se algum lhe ficaria melhor que o habitual. Penseu por fim o acostumado. O cabelo parecia ir tombando sozinho nas ondulações naturais.
A viúva curvou-se, observou de perto os dentes, perfumou-se muito, sorrindo para o espelho, achando bonito seu rosto val, onde as pestanas faziam sombra. Em frente dela, sobre o mármore, o perfumista Guirland parecia ter despejado profusamente os seus mais finos produtos. Potes de porcelana, vasos de cristal, bocetas de velutine, exalavam o aroma confuso, forte,
entontecedor. Sozinha naquele quarto, em que a sua imagem se duplicava, Ernestina estudava os seus movimentos, procurando ao mesmo tempo adivinhar qual seria, entretanto, o perfume preferido de Luciano. O musgo, quem sabe, talvez, fazia lembrar o campo.
Água limpa rolando em pedras claras, camponesas contentes de carnes fortes. O lírio, quem sabe, talvez, fazia sonhar em idílios brandos e amores virginais. A flor de fruta, o gique, o eliotropo, a violeta, quem pudesse adivinhar? Ernestina abriu diversos frascos consecutivamente, chegava aos bem perto as narinas palpitantes, mas no fundo de todos eles encontravam o mesmo mistério, a mesma vertigem, a mesma dúvida.
Isso exacerbava a voluptuosidade da moça, irritando-a ao mesmo tempo. Desmanchava com mãos nervosas, na água simples, as nuvens rupalinas das essências, e quedava-se depois observando seus ombros delicados e nus, os seus formosos braços e a maciez do seu colo aeroso. Bestia-se devagar, demoradamente.
A lam preta do luto repugnou-lhe, aquele traje áspero e triste não era o que seu corpo desejava. A pele bem tratada queria seda, um contato macio, que caísse sobre ela como uma carícia. Abriu a gaveta das jóias, apalpou os anéis de brilhantes e de pérolas, as pulseiras e o seu alfinete predileto, um botão de rubi e brilhantes.
Mas sobre a lam do vestido, as jóias iam mal, e o mundo impedia-lhe o prazer de as trazer com luto. Toda de preto parecia mais magra e menos bonita. Exasperou-se, achou o vestido medonho, o chapéu detestável. Durante mais de uma hora foi um incessante abrir e fechar de gavetas, até que a voz
de Sarah se fez ouvir através da porta. – Mamãe, está pronta? – São duas horas. – Já vou. – Sim, eu estou pronta.
A senhora quer lanche? – Não. É melhor irmos ao Pasqual, não é? – É sim, vai descendo, eu já vou. Sarah descia o jardim, quando sentiu os passos apressados da mãe.
Ernestina impacientava-se com a espera do bonde para o elevador e embaixo com o outro que a levasse a São Francisco. Falava em comprar carro, mudar de bairro, ir para Laranjeiras. Sarah estranhava aquilo, fazendo objeções. Concordava com a aquisição do carro, mas opunha-se à troca de casa.
Aquela em que viviam estava cheia de recordações do pai, o escritório, sua varanda predileta, os cantos preferidos no terraço, na sala de jantar, até as plantas fora, árvores e roseiras cultivadas por ele. Suplicava que não falasse nisso. Chegadas à cidade, Ernestina procurava em vão esconder o seu alvoroço.
Sarah fele a entrar na Notre Dame, encantada pela exposição das vitrines. A mãe deixava perto do balcão, sozinha, e dirigia-se amiudamente à porta, numa ansiedade febril. A moça reclamava. Mamãe, escolha, qual é mais bonito, este corte cinzento ou aquele branco e preto?
O azul. O azul? Sim, o azul é o mais bonito, respondeu a mãe apressada, quase sem olhar. E o luto? Ernestina atrapalhou-se.
Já nele ocorria o luto. E no disfarce. Quero dizer, podes também comprar o azul para fazer depois. Não passará da moda? Eu sei lá.
Mamãe acha que o azul me vai bem? Muito bem. Cansada de pedir conselhos à mãe, Sarah passava sozinha do raião das lãs para o das sedas, das capas, dos chapéus, das rendas, de tudo. Comprava aqui, ali, a colar, meio tonta, magnetizada por tantas coisas brilhantes e bem dispostas.
Atravessia daquela casa e ali povoando a imaginação de sonhos. As escomilhas, as gases, as túleas transparentes, as sedas muito claras de tecidos mimosos, lembravam-lhe bailes, acendiam-lhe desejos de valsas cortadas por frases curtas ao som ritimado da música. As sedas pretas, os livros de missa, as grandes franjas de vidrilho, chamavam-a de repente
a festas de igreja, muito solenes, onde o bispo abençoasse o povo. Dali, saltava para homenagem. As toalhas de linha damascadas, com barras vermelhas, ouro velho e azul persa, sorriam-lhe, chamando-a para a sua alegre sala de jantar, cheirando as belas rosas de Marie-Charline Niel, que se enroscavam as janelas.
E ela palpava pelúcias cor de fogo e rendas cor de opala. Pensava em toaletes de teatro, de baile, de recepção, de passeio. Vendo as fitas desenroscarem-se dentre as mãos de um caixeiro, como serpentes multicores e tentadoras, e contemplando os grandes leques de plumas que uma moça escolhia perto do balcão.
Queria comprar tudo, encontrava uma aplicação imediata para cada objeto. A moda sorria-lhe, chamava-a para fora daquele luto, daquela vida austera, concentrada e simples do seu chalé. Envejava as mulheres que frequentavam a sociedade, arrastando capas de arminho em corredores de teatro e caudas de veludo nos salões de baile.
Na ocasião do pagamento, Sara correu a mãe, que não saíra da porta. Ernestine entregou-lhe a carteira, que fosse sozinha a caixa, ela esperaria ali. Um instante depois, desciam a par à rua do ouvidor. Havia muita gente nas calçadas, um rumor surdo de passos e de vozes que as atordoava, tinham se afeito ao silêncio da sua chácara.
Sara entrou no armarinho, Ernestine acompanhou-a até o interior da casa, mas voltou depressa para fora com sobressalto. Parecia-lhe ouvir a voz do Luciano. Fora erro, era um sujeito que discutia com o velhote surdo gesticulando muito. De pé, na soleira da porta, a viúva olhava para a multidão que passava, esperando a
todos os minutos o Luciano. Pela lã mole do seu vestido preto, roçavam as saias de seda e as saias de chita das outras mulheres que passeavam devagar, ou que passavam apenas na pressa dos que trabalham. Na esquina, perto, estacionavam os vendedores de flores. Os seus ramos de cravos e violetas embalsamavam o ar.
E era um encanto ver a variedade de rosas finas, brancas, amarelas, escarlates, cor de rosa, e os raminhos de miosotes de um azul delicado, dormindo na concha verde e macia de uma folha de malva, mais as formosas camelhas de petrópolis, de uma alvura puríssima. No meio da rua, um homenzinho cor de folha seca atraía a criançada, segurando pelos fios os alegres balões de gás, vermelhos e azuis, muito leves, que bailavam sobre
a onda movediça dos chapéus escuros. Mas quem portava viúvas simões aquela variedade de matizes, aquela doçura de sons, aquela onda de perfumes, de toaletes e de mulheres bonitas que se alastravam por ali? Tinha só um objetivo. Vê-lo.
A cigana imunda, com o filho ao colo e um chá em farrapos, esteve longo tempo parada diante dela com a mão estendida, murmurando queixumes. Ernestina, com a cabeça erguida e o olhar em busca de Luciano entre grupos e grupos de homens que se sucediam, nem a viu nem ouviu. E a mendiga desanimada passou adiante.
Uma pancada de leque no ombro chamou-a a realidade. Era Dona Candinha, a mulher do Nunes. Que milagre é esse? Você na cidade? Ah, é verdade.
Onde está a Sarah? Bem se vê que você não vem à rua do Ovidoro há muito tempo. Por quê? Está com ar esquisito? Tem alguma coisa?
Não. Sarah? Estou aqui, mamãe. Foi um alívio para a viúva. Sarah desatou a conversar com Dona Candinha e Ernestina deixou-se silenciosa à vontade.
Dona Candinha era uma boa companheira de passeio, desembaraçada, risonha e conhecendo meio mundo, o que encantava Sarah, ávida por divertimentos e sociabilidade. A mulher do Nunes era alta, gorda, morena, beijo ensombrado por um buço, ameaçador de se tornar um bigode lá para a velhice. Bonita de feições, com dentes magníficos e olhos rasgados, úmidos e espertos.
Gostava muito de reunir em casa os amigos em Suarez que se prolongavam até as primeiras horas do dia. Vestia com luxo, embora sem gosto, sedas com ramos, tecidos vistosos que lhe iam mal. Usava muitas jóias e falava alto, abrindo os braços para cada amiga e a bolsa para cada pobre.
– Viram passar por aqui o meu velho? – perguntou a Simões. – Não. Dona Candinha adorava o marido. Negociante português, homem generoso, que lhe fazia todas as vontades e ainda pagava
colégio de luxo às cunhadas e casa a duas tias velhas, irmãs do sogro. Estiveram conversando algum tempo, até que a Ernestina, muito impaciente, arrastou a filha consigo. De longe em longe, alguns conhecidos faziam-nas parar, manifestando espanto por encontrá-las na cidade, tão raro isso era.
Sara ria-se e Ernestina respondia seguindo com olhar a turba que passava. Em uma dessas ocasiões, conversavam com o velho amigo do finado Simões, quando Ernestina julgou ver Luciano ao longe. Foi uma lástima. O velho falava-lhe sem que ela percebesse nada e apressou-se em despedir-se, cortando
uma frase que o pobre homem começava a dizer. Estranhando os movimentos da moça, ele não se pôde coibir e perguntou. Procura alguém? Não, respondeu Ernestina, embaraçada. Há muito tempo que não saio e esta búlia incomoda-me.
Vou para casa. Entretanto, seguiu o caminho oposto e até às seis horas subiu e desceu à rua do ouvidor, deixando Sara comprar o que lhe aprovesse, sem a mínima intervenção, num verdadeiro suplício. Fim da sessão 4, gravado por Raquel Moraes.
- 05 - Capítulo 5
Seção 5 de Aviuvas Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Aviuvas Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Seção 5. Capítulo 5. Savabim-se, Augusta, perguntava simples ao cupeiro na cozinha, esganiçando-se e rindo para ele, que mal lhe respondia com um sorriso desdenhoso.
Diabo de negrinha assanhada, murmurava Benedita, remexindo as panelas. Ora, veja só, aquela 13 de maio, eu não sou negrinha, sou moça morena, ouviu? Quem lhe ensinou, francês? Perguntou o jardineiro Amulata, interrompendo o café que bebia pelo Pires. Mamãe.
A Benedita riu-se alegremente, fartamente. Simplícia, na ausência de Ernestina, chamava a mamãe. Ora, veja se a Enha ia se cansar de ensinar francês a negrinha. Seu João, ela só sabe dizer aquilo. Sem mais coisas.
Então, converso com o seu Augusto para a gente ver? O cupeiro levou os talheres para a sala de jantar, sem querer dar confiança à pequena. Toma! Gritou-lhe a Benedita e estalou a língua depois de ter provado o feijão. Simplícia acrescentou, espalmando no ar a mão curta e magra.
Deixe estar que ele me paga, ainda há de gostar mais de mim do que eu gosto dele. Depois tirou do peito um lencinho da ama muito perfumado e começou a dançar cantando alto Xô, xô, xô, araúna para que o cupeiro a ouvisse, sacudindo lenço sobre a cabeça irsuta e cheia de terra do hortelão. Sapeca murmurou a Benedita com desprezo.
A dança continuou requebrada e lenta até que ouviram a voz de Ernestina zangada por não encontrar ainda a mesa posta. Calaram-se todos. Caiu a casa no acostumado e respeitoso silêncio. A viúva voltara enfadada e nervosa.
Saíra à procura de Luciano e não o tinha encontrado. Onde estaria? Por que eu amava assim? Como podia um amor há tanto tempo extinto renascer com tamanha veemência? Arrependia-se de ter saído.
Não queria pensar nele nem amar ninguém. Aquilo era uma loucura que havia de passar. Desejava somente vê-lo mais uma vez, só uma vez. Depois afastaluía da ideia. Ela não se pertencia.
Era da filha. Tudo que havia ali devia ser da filha. Tinha sido ganho pelo pai com esforço, por amor dela. Logo depois do jantar, Ernestina recolheu-se ao quarto muito fatigada e nervosa. Parecia-lhe um sonho tudo aquilo.
Principiava a considerar ignominioso todo o tempo que viver ao lado do marido, na pacatez burguesa e honesta do seu lar. Lembrando-se dos beijos que o esposo lhe dera, esfregava com força os lábios e as faces, como se os sentisse ainda e os quisesse arrancar da pele. Chegou a lamentar o nascimento da filha, mas desse sentimento arrependeu-se depressa.
Adorava a Sarah e queria-a sempre bem pertinho de si, com quanto desse razão a Luciano. Afinal, o ciúme dele lisonjeava-a. Se Luciana aborreci-a a Sarah, era porque a amava, a ela, e a pequena era a recordação viva e inestinguível do pai. Andou pelo quarto febrilmente até o anoitecer.
Volta em mês, barrava com algum objeto que pertencer ao marido e desviava o olhar, indignada de o ver ainda ali na intimidade do seu quarto. Ernestina encostou-se por fim à janela. A tarde morria rapidamente, toda a terra lhe parecia escura, de uma tristeza singular, o mar ao longe como que um deserto de cinza.
As casas, túmulos dispersos, as árvores, sombras negras e mudas. Ernestina sentia as lágrimas queimarem-lhe as pálpebras, o coração grosso pesando-lhe no peito e uma raiva crescente de tudo, de todos. Ficou por muito tempo olhando até que as luzes de gás bordaram toda a cidade de pontos luminosos.
Num canto, um foco de luz clara enluava um grande círculo em um limbo indistinto. E a viúva, aconchegando os braços ao corpo friorento, olhava para a luz, fixa, abstratamente. Eram sete horas quando desceu ao jardim à procura da filha. Encontrou a trepada numa escada de mão, debruçada no muro,
conversando para o quintal vizinho com a sua amiga Georgina. Desta vez era a Sarah quem descrevia suas impressões, narrando episódios vulgares do passeio e relatando o número de pessoas conhecidas com quem tinha se encontrado. Ernestina zangou-se, desabafando contra a filha toda a sua cólera.
Que isso? Estás aqui com este frio? Eu depois que te ature se ficares doente. Vamos para dentro, anda. Já vou mamãe. Adeus Gina. Então, que modo são esses? Já estou descendo mamãe. Vamos, vamos.
Eu ainda hoje não tinha visto Gina. Nem há necessidade de se ver em todos os dias. Estou farta de tolices. A voz de Ernestina tornara-se brusca e imperativa. Entraram ambas. Mamãezinha está zangada?
Perguntou Sarah com doçura, abraçando a mãe. Ernestina arrependeu-se e, envergonhada das suas pereza, beijou a filha, dizendo-lhe com brandura. Vai tocar? Tocar? E o luto?
O luto, o eterno luto, era sempre a resposta. Passaram um serão melancólico. Às dez horas, recolheram-se aos quartos. Ernestina não pôde dormir. A cama fazia-lhe mal.
Atormentava a ideia das noites que dormir ali, com os simões. Quinze dias depois, Luciano fez-lhe a segunda visita. A viúva lamentou-se da sua ausência e indagou dos lugares que ele mais frequentava. Ele, muito calculadamente, mostrava-se frio.
Disse ter estado fora, na fazenda de um amigo, e a visita correu às vezes silenciosa e sempre constrangida. Quando Luciano saiu, Ernestina fechou-se no quarto, a chorar. No dia seguinte, Sarah, ao almoço, notou a falta da aliança no dedo da mãe. Haja muitos dias que ando sem ela.
Objetou Ernestina. Perdia. Sarah mandou imediatamente a Simplice procurar o anel. A mulata encontrava tudo. Parecia ter o dono especial de adivinhar as coisas.
O que fazia dizer a Benedita? Simplice acha tudo que se some, porque é ela mesma que esconde tudo que se pode sumir. O anel não foi escondido por ela. Entretanto, acharam rapidamente embaixo de um dunquerque da sala.
Aquilo acabou de contrariar Ernestina. Alegou que a aliança estava muito larga, o frio contraíra-lhe a carne. Ela já não procurava lutar contra o seu amor. A resistência tinha a martirizado inutilmente. Passavam os dias a pensar nele, nos idílios de menina de 15 anos.
Os criados já não sofriam a mesma fiscalização severa. Os armários ficavam abertos, a chave da despensa nas mãos da Benedita, para regalo da simplícia que apreciava seus copinhos de licor de cacau. Uma noite em que a saudade e o desejo de ver Luciano apertaram, foram ao teatro.
Sara estava contentíssima, mas a mãe arrependeu-se depressa. Levavam uma peça grosseira que a plateia aplaudia muito. Luciano não aparecia. A Simões não tirava os olhos das portas da entrada, esperando sempre que ele viesse, atraído pelo seu amor.
Sentia febre e não prestava atenção ao que se passava em cena. As gargalhadas e os aplausos atormentavam-na. A saída, quando já nada esperava, teve uma surpresa. Luciano conversava num grupo de rapazes perto do teatro. Ele, destacando-se da roda, foi cumprimentá-la.
– Vieram de carro, não? – perguntou, procurando em redor com a vista. – Não, viemos de bonde. – Sozinhas? – E mostrou espanto. Ernestina ficou embaraçada. – Que tem isso? – objetou Sara. O luar está tão lindo que até convida a irmos a pé até o ascensor.
– Sim, mas não é prudente arriscarem-se duas senhoras moças a andar por estas horas na rua sem um cavalheiro. Luciano acompanhou-as e ia ao lado da viúva, censurando-a pela má escolha do teatro e por virem ambas tão sós. Achoa-a linda nessa noite.
Ela calava-se, sem confessar que todas aquelas loucuras as fazia por ele, mesmo com prejuízo da filha. Passadas as ruas de maior movimento, ele deu-lhe o braço e curvou-se meigo para ela. Lembra-se de uma noite de luar como esta, em que andávamos de braço pela chácara do tio Augusto?
– Sim, me lembro. Dias depois foi o senhor para a Europa. E um ano depois recebia a notícia do seu casamento. A invocação do tempo passado tornou-a envolvê-los na mesma familiaridade da primeira visita. Sara andava na frente, cantarolando baixo os couplet que ouvira. Eles iam muito juntos, apertando-se as mãos e falando de amor.
Fim da sessão 5, gravado por Raquel Moraes.
- 06 - Capítulo 6
Seção 6 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Seção 6. Capítulo 6. No dia seguinte, Luciano foi jantar à Santa Tereza. Encontrou as duas senhoras na saleta do piano.
Avilva fazia um bordado de tapeçaria. A filha renovava as flores de um jarrão. Ele sentou-se entre ambas, voltando toda a sua atenção para a dona da casa, a quem ofereceu um pacote de marrom glacê, enfeitado com fitinhas azuis. Avilva desamarrou o embrulho com toda delicadeza, mostrando as unhas que brilhavam como coral polido.
Entretanto, Sara, com o pescoço esticado, ia dizendo. Eu gosto muito de doces. Saía papai, como ele apreciava marroms glacês. Lembra-se mamãe, daquela vez que fomos todos ao Jardim Botânico, só nós dois acabamos com um pacote de marroms do tamanho desse?
Mamãe só dizia. Sara, que é isso? Basta. E papai, então, santo que ele era, respondia-lhe. Ora, meu amor, deixa pequena. Se ela come, é porque tem vontade. Papai muitas vezes chamava mamãe assim.
Meu amor. Luciano mordeu o bigode, enquanto a viúva, muito corada, disfarçava, perguntando-lhe se não achava de bom gosto o seu bordado. E erguia a tala garça, já meio encoberta pelas sedas e as lãs. Querendo desviar da memória da filha a lembrança do pai,
ela começou a falar com volubilidade em coisas diferentes, saltando de assunto, como a escolher terreno. Como por fim a conversa recaísse sobre coisas de arte, Luciano pediu-lhes que marquassem um dia para irem ver o seu pequeno museu. Ele trouxera da Europa algumas coisas valiosas
e citava entre elas um busto de garoto que figurava no salão. Está dito, exclamou Sara alegremente, iremos amanhã. Amanhã? Não, objetou Luciano quase sem olhar para a moça. Tenho ainda alguns preparativos a fazer, ainda não achei um tapete a meu gosto para biblioteca.
Ah, o senhor tem uma biblioteca? Tornou Sara. E depois de uma pequena pausa. Aí está uma coisa que eu ainda não vi em casas particulares. Se papai fosse vivo, eu também teria uma biblioteca.
Ele dizia sempre que havia de me dar uma bonita educação. Não é verdade, mamãe? É sim, é. Luciano rufava com os dedos na mesa sem ocultar o seu enfado. Ah, se o senhor conhecesse papai, havia de gostar muito dele.
Luciano sorriu. Sara continuou. Todos o estimavam. Só uma pessoa, ele tinha raiva, inveja. Também eu odeio-a.
Sem pronunciar o nome, compreenderam todos que eu ludia ao Rosas. Papai era tão meigo, tão condescendente. Dava-me sempre um beijo em cada face e outro na boca. E a mamãe também. Luciano levantou-se.
E Ernestina, muito corada, disse precipitando as palavras. Então, Sara, que termos são esses? Vai esparecer as saudades do teu pai lá com a Gina? Anda! É melhor isso do que estar constantemente a relembrar coisas passadas. Os olhos de Sara encheram-se de lágrimas.
Mas para que Luciano não a visse chorar, saiu precipitadamente da sala. Ernestina ficou silenciosa, com as mãos trêmulas. A vista pasmada nas cores vistosas do bordado. Decididamente eu não posso tolerar a presença desta menina. Esclamou Luciano num desabafo.
Oh, sou brutal? Desculpe, mas sou sincero. Ela é uma criança e ignora que... Uma criança? Então. Mas diga-me, que significação tem aquilo de estar sempre, mas sempre, referindo-se ao pai? Amava-o muito.
Embora, mas isso parece ou não proposital? Não. Não? As mães são cegas. Coitadinha, tão inocente a minha Sara. Não sei, mas confesso-lhe que só a sua vista me mortifica.
Ernestina levantou-se pálida e trêmula de indignação. Não posso lhe impor simpatia por minha filha, mas julgo a estar no direito de ordenar que a respeite ou... Ou que me retire. Ernestina calou-se, sufocando na garganta o soluço.
Pois não vê, Ernestina, que se eu odeio a filha é porque adoro a mãe? Perdoe as minhas palavras. São filhas do ciúme violento, tenaz, que se apoderou de mim desde que vi Sara. Ela é a continuação do pai, o beijo vivo, ardente, trocado pelas vossas bocas. É essa ideia que me martiriza e que me perde.
É uma insensatez? Chame como quiser. Nessa tarde, Ernestina lembrou a filha que fosse passar parte da noite em casa da Gina. Mamãe vai? Eu não.
A filha admirou-se. Até então a mãe não a deixava nunca sair só. O luar inundava a terra com sua luz veludosa. Pelas portas de vidro fechadas ao frio, via-se lá embaixo a cidade com umas luzes frouxas. Sara tinha saído.
Ernestina e Luciano, sentados junto a uma janela da sala, conservavam-se por instantes silenciosos, pensando talvez nos primeiros dias do seu amor desabotoado e esquecido em plena mocidade. Dizem os psicólogos que as duas criaturas que se amaram e que se esqueceram mutuamente não se tornam a amar nunca mais.
Bravo, não imaginava tão letrada. Mas fique certa de que a psicologia é uma palavra tão enganadora como outra qualquer. E depois, nós nunca nos esquecemos. Não é assim? Eu por mim?
Ernestina não teve coragem de concluir. A mentira não lhe saiu da garganta. Luciano aproximou-se para bem perto da dela a sua cadeira, tomou a mão da viúva e beijou-a demoradamente na palma, nos dedos, nas unhas. Que mãos bonitas, como eu adoro estas mãozinhas.
Ernestina sorriu-lhe. Ele continua a falar amorosamente e pediu-lhe que tirasse o luto. Queria vê-la de branco, como uma noiva e de cores claras e cantantes. É preciso esperar. Dê-me essa prova de amor.
Tire o luto. É cedo, tenho medo. Medo de quê? De que os outros reparem? Medo de...
De quem? De minha filha. Oh! Ernestina corou, arrependida de ter dito aquilo. Ficaram alguns segundos calados e imóveis.
De repente a moça, resvalando o olhar pelas paredes, pareceu-lhe distinguir o corpo da simplícia, mal oculto por um reposteiro. Levantou-se de chofre e atravessou a sala. Luciano seguia-lhe os movimentos com estranheza. Que tem?
Que é isso? Mas a viúva chamava para dentro, afastando rapidamente o reposteiro. Já não havia nem a sombra da mulata. O Augusto apareceu e ela mandou iluminar a sala. Para quê?
Indagou Luciano. O luar está tão bonito. Entretanto, Ernestina não cedeu e exigiu de Augusto que acendesse todos os bicos do lustre e das arandelas. Quando voltou para o lado de Luciano, encontrou-o com a fisionomia áspera e pensativa.
Ela falou-lhe em casamento. Não queria prolongar aquela situação. Logo que aspirasse o prazo do luto, poderia unir-se para sempre. Ele ouvia a calado. Depois de um curto espaço de silêncio, perguntou se não haveria algum pretendente à mão de
Sarah. Não, por quê? Seria melhor que ela casasse primeiro. Viveríamos sós, sem ouvir referências a outro que me viessem estragar a felicidade. Separar-me de minha filha?
Não será a primeira mãe a quem isso aconteça. Nunca. Não falemos mais nisso, replicou Luciano com tristeza. Conservaram-se por algum tempo afastados, mas as mãos uniram-se outra vez. Os olhos procuraram-se e ele beijou-a na fronte, na face, na boca.
Ernestina meio oculta pela cortina de renda preta, deixava-se abraçar, amolecida, tonta, sem forças para resistir. O busto vergado para Luciano, os braços pendentes, o corpo trêmulo. Nas paredes cinzentas da sala, os arabescos de ouro cintilavam, como se os milhares de gafanhotos que estampavam no papel as suas asas agudas e as suas pernas fininhas se embaralhasse
numa dança endiabrada. O gás a toda força chamejava no cristal do espelho, amornando a atmosfera e fazendo uma bulha de sopro surdo, como riso abafado. Toda a energia da viúva tinha fugido. A luz?
Que lhe importava a luz? Ela não via, não pensava, resvalava sem pena nem cuidado, sentindo-se feliz. Mais nada. Subitamente ouviram a voz de Sarah, que se aproximava de casa, cantando alto. Passe embora, Luciano, mais um momento.
Minha filha vem aí. Está indo em casa da Gina? A voz vem de lá? Não, vem do jardim. Mais um beijo.
Afirmo-lhe que ela está em casa da Gina. E que esteja. É tarde. É cedo. Ele quis abraçá-la.
Ela resistiu. Reassumida toda a sua energia. Luciano saiu, cruzando-se com Sarah já perto do terraço. A moça sorriu-se e, interrompendo o canto, deu-lhe as boas noites. Ele resmungou umas palavras incompreensíveis e mal tocou o chapéu.
Então não me diz adeus? Perguntou Sarah atônita, voltando-se para trás, para o vulto de Luciano que fugia na sombra. Ele não respondeu. Bruto!
Murmurou a moça ofendida. Por que não falaria comigo? Ora, por qualquer coisa. Que me importa. Ernestina tinha ficado só.
A filha calara-se. A casa parecia adormecida. Batia-lhe o coração e o sangue abrasava-lhe as faças. Precisava de ar. Abriu a janela e encostou-se.
Respirou com força, sentindo-se feliz por ter vencido. Ser amante de Luciano? Nunca. Expôs-a-se. A proporção que os seus sentidos se acalmavam, ela pensava na implacável exigência de Luciano
de a separar da filha. Encostada ao umbral, deixou que a sua alma fraca de mulher interrogasse as coisas mudas. Que lhe destinaria o futuro? Nada lhe respondia. Foi em vão que meditou, cravando o olhar interrogativo na grande esfinge que desenhava
além, na noite enluarada, o seu enorme corpo vigilante e altivo. Voltou para dentro, muito nervosa e agitada. Ao atravessar a sala, teve medo. Da sua grande tela sombria, o marido parecia acompanhá-la com a vista. Ernestina sentiu vergar em silhos joelhos e tateou com mão trêmola o fecho da porta
por onde saiu. Nessa noite não pôde conciliar o sono. No quarto, tudo lhe falava do marido. A cama parecia lhe guardar o calor do seu corpo. Os lençóis e as fronhas eram marcados com seu nome, e o cabídeo em que ele costumava
pendurar a roupa, estendia para ela os braços nus. Ernestina revolvia-se no leito sem descanso. Sem perceber como, com a convivência, adquirida certos hábitos do esposo, procurava agora um meio de os corrigir. Só agora notava que era como o dele o jeito porque cerrava o cortinado, sempre de um lado
só, que fora com ele que se viciara em não adormecer sem tomar uns goles de água açucarada, e que até os seus gestos, as suas palavras e o seu modo de pensar, refletiam particularidades dele. Sem poder dormir e muito impressionada, passou ao quarto da filha. Sara dormia profundamente, respirando alto, com os braços sumidos embaixo da roupa e a
sua cabeça redonda e grande enterrada no travesseiro. Ernestina, a trimer de frio, deitou-se aos pés da cama muito devagarinho, encolhendo-se para diminuir de volume. Adormeceu e acordou várias vezes, mas o seu sono era leve, como que assustado. Ao amanhecer, levantou-se antes que Sara surpreendesse, e saiu.
Tornou para o seu quarto, estendeu-se num divã muito cansada, com o corpo cheio de dores, a cabeça fraca, e posse essas maras em futilidades, com certos de jóias, vestidos a fazer e visitas. Nesse dia aliviou o luto. Sara mostrou-se admirada e ofendida.
Ainda não há um ano e mamã já usa branco? O luto é uma tolice, creio que já dei uma satisfação à sociedade. De rigor é um ano. Não há na roupa que está o sentimento, é no coração. Eu sei, mas gostava que mamã fizesse como as outras.
As outras? Quem te ouvi falar assim há de pensar que não lamentei a morte do teu pai. Não, minha mamãezinha, Deus me livre. Eu bem sei que mamã tem muitas saudades. Poderá, se não fosse assim a senhora seria ingrata.
Enestina corou, mas Sara, muito ingênua, não deu portal. Principiou então uma vida toda diferente. Era alufa-lufa dos vestidos novos, sedas caras, luxo sem método, assinatura no lírico, concertos, dias inteiros fora de casa, em passeios onde se encontrasse Luciano. Ele vinha sempre muito atencioso, numa amabilidade discreta e delicada, conversar com a Enestina,
que tinha assim a sua recompensa. Sara recebia com prazer assim a observação dessas coisas, que a mãe explicava assim aos amigos. Sara tem 18 anos, está no tempo de gozar, não lhe faltarão desgostos no futuro. O seu amor por Luciano crescia como uma febre. Não pensava, não via outra coisa.
Era sempre ele a povoar-lhe o espírito de sonhos. Nos bailes, como não dançava ainda, incitava-o a dançar com a filha. E no outro dia, indagava dela o que ele tinha dito aos pares, fazendo-o repetir as palavras de Luciano. Sara ia contando sem reparo e confessava que fuera ele o mais espirituoso entre todos os pares com quem tinha conversado. Enestina, lisonjeada, beijava a filha muito alegre.
Todas as pessoas que elogiassem Luciano tornavam-se logo para ela muito simpáticas. Sabendo que o Rosas, velho e encarnizado inimigo do seu difunto marido, era o melhor e mais íntimo amigo de Luciano Dias, entrou a consagrar-lhe tal amizade que o convidou repetidas vezes, com insistência, para ir à sua casa. E isso aconteceu.
O Rosas cedeu a vontade da viúva e do amigo, procurando mesmo intervir para que se realizasse o casamento. Um dia, Enestina conversava com ele muito satisfeita na sua sala, esperando ouvi-lo falar de Luciano, quando Sara, ainda desprevenida, abriu a porta e entrou. A moça estancou no umbral, fixando atenta e admirada os olhos na visita. O seu rosto, habitualmente rosado, tornou-se lívido.
Os lábios tremeram-lhe, não encontrando palavras para a indignação que lhe fervia no peito. A mãe, embaraçadíssima, ergueu-se e foi ter com ela, automaticamente, sem atinar com o que dissesse. Mas Sara repeliu-a com um gesto. Enestina compreendeu então num relance a sua imprudência, e empurrando a filha para fora, fechou com raiva o reposteiro.
Sara saiu para o jardim tonta e trêmula. Não via nada. Andava de um lado para outro, como um pássaro ferido a lutar com a morte. A pouco e pouco a dor ia se abrindo, mostrando-se toda como uma flor ao sol. A moça esmagava com os pés, maldosamente, os miosotes rasteiros de florzinhas azuis, como olhos de anjos, e as folhas tenras de malva maçã cheirosa.
Rangiam sob suas butinas a grama fresca, as ácidos dos junquilhos, os amores perfeitos de cores veludosas, os botões de ouro, as violetas, os cravos, as anêmonas e as flores lácteas do nardo. Destruir, arrasar tudo era a sua vontade. O Rosas, o grande inimigo do seu pai, ali, dentro daquela casa, endossi teta teta com a sua mãe. O comandador Simões não o pudera ver nunca, sem desgosto e sem raiva.
E o viu aproveitava-se agora que ele já não vivia, para aí recostar-se nos seus estofos e pisar as suas alcatifas. Sara sentia-se forte, tinha ímpetos de esperar ali o Rosas e lhe bater na cara com as suas mãos nervosas. Desesperada, fustigava as plantas em movimentos furiosos. Voavam dispersas as flores aromáticas do belo manacá e o heliotropo lânguido pendia para o chão. Um dilúvio de flores inundava os gramados.
Choveam pétalas de rosas e de hibiscos, de dálias, lírios, margaritas, jasmins, cidrilha, jurujubas, murta, petunhas, fuças, resedais, esponjas e quissora e açucenas. Flores de arbustos, flores de trepadeiras, flores tuberosas ou flores de orquídeas, obedeciam todas a vontade de Sara, que as derrubava subindo e descendo as ruas do jardim e do pomar, repetindo baixinho. Papai, papai, como pedir-lhe socorro por sentir iminente um perigo.
O dia estava formoso de um azul-violeta muito intenso, onde a luz dourada do sol rolava em ondas largas. As romanzeiras enfeitavam-se com as suas flores de um escarlate régio. Pendiam das jaqueiras como húberes enormes, grandes jacas maduras. E a parreira abria numa cruz cor de esperança, seus braços cobertos de folhas largas e macias. Sara corria no meio de tudo aquilo, nervosa, resfoligante como um animal de raça,
mostrando as pernas finas, galgando os degraus dos socalcos, esmagando com as solas as flores claras dos morangueiros, abrindo para todas as coisas os seus olhos muito brilhantes e movendo os lábios secos na repetida súplica da sua alma. Papai, papai. Mas o pai não lhe respondia e ela, de vez em quando desesperada, arrancava com repelões as frutas que a mão alcançava e atirava-as ao chão, brutal, violentamente, só pelo delírio de estragar.
As laranjas, de um verde que a maturação começava a atingir, rolavam de socalco em socalco. Grupos de jambos brancos caíam, separando as suas campânulas de cristal rosado, de mistura com araçás ainda verdes e pitangas cor de rubi. Um tapete de frutas ia se alastrando pelo pomar e Sara pisava, esmigalhava, mordia, rangendo os dentes nas frutas-ácreas ainda verdes. Ou sacudia as árvores, abraçando-se aos troncos setinosos dos pés de Cambucá, aos galhos ásperos das goiabeiras. Tudo a mortificava, a exacerbava.
Revivia a lembrança do pai, o ódio antigo, entranhado, feroz, por ele consagrado ao Rosas. A surpresa de o ver sentado perto da mãe e, ao mesmo tempo, a vergonha, a dor de ter sido repelida. O sol parecia queimá-la, abrasando-lhe a cabeça nua, refugindo no seu formoso cabelo cor de ouro, solta pelas costas numa transa laça. Ela ia, ora batida de sombra, ora toda vestida de sol, sem saber para onde, parando aqui, ali, voltando para trás, Desfolhando sem piedade as grandes flores roxas do maracujá ou as flores perfumadas dos limoeiros,
batendo com os pés nos cajás soltos, nas carambolas e nas ameixas de Madagascar espalhadas no chão. O seu desejo era que aquele bom sol enorme e fecundante incendiasse num momento todas aquelas limeiras e sidreiras, os pés de sapotir, de pinhas, de gene papo e dos abios. As figueiras, as ameixeiras, o laranjal, os bambusas, jaboticabeiras, os pés de grume-chama e de abricó. Todas as velhas árvores amadas, o rosairal, e a casa, e ela, e tudo.
De repente, estacou, os joelhos vergaram-se-lhe e reventou em soluços. Em frente dela erguia-se o vulto enorme e sombrio de uma mangueira, que tinha sido sempre ali a árvore predileta do pai. Sara deixou cair na terra dura o seu corpo branco e cansado. A mangueira era no alto, no extremo da chácara. Extendia para todos os lados os seus poderosos braços tranquilos, de onde pendia a erva barba de velho,
caindo em fios longos, que lhe dava um aspecto de vetusta e doce austeridade. Sara quedou-se imóvel sobre as raízes da mangueira, que se salientavam na terra escura, como uma vigorosa ramificação de nevos. Lá embaixo, ao longe, a cidade atirava ao ar rolos de fumaça. E como que a evaporação do suor do trabalho, que parecia subir em camadas contínuas, densas, distintas na atmosfera. No mar, que há muita luz em palidecia, distinguiam-se os cascos negros dos navios mercantes e as chaminés bojudas dos paquetes.
A febre dos dias de semana rumorejava num delírio rouco, cortado de vez em quando por um ou outro silvo agudíssimo das máquinas de alguma fábrica. O Rio de Janeiro arfava. De todos os telhados parecia levar-se, ignota e grande, a dor da luta pela vida. A felicidade, o luxo, a miséria, o dinheiro, o gozo, a raiva, o esplendor, a fé, a mentira, a paz e a desordem. Tudo ela via dali, na suprema glorificação da luz de ouro que tombava a jorros do céu violáceo. O teatro, o hospício, as igrejas, as fábricas, os cães, os jardins, os palácios, os casebres, o mar, o arvoreiro, o cemitério.
Tudo se unia e se confundia na fogueira do sol, na vida da grande e poderosa cidade. Sara chorava baixinho. Aquela mangueira muda, serena, com a sua velha casca rugosa, com as suas nodosidades cobertas de camachilras, as suas folhas sombrias e abertas e as suas parasitas, quebrava-lhe a excitação raivosa numa onda de ternura. Era ali que o comandador Simões gostava de sentar-se nas tardes de domingo, recomendando sempre ao hortelão que não lhe ebulisse nessa árvore,
que a deixasse livre de enxertos e de podas. Queria-a assim, agreste, inculta e sossegada. Sara recordava isso olhando para as toalhas ondeadas de verdura que se iam desenrolando pelo pômar até lá embaixo, a casa de que só distinguiu o telhado. Os tamarindeiros são picados com florinhas amarelas e os persegueiros de um verde cinzento, mas as figueiras, as ameixeiras, os cajueiros, as árvores de abricó, das carambolas, da fruta do conde, do abacate, as amendoeiras enormes e as bananeiras airosas confundiam-se, unindo as ramas, variando os matizes do verde mais claro até o verde mais negro, com manchas aquilouras, alias branxadas ou róseas ou cor de ferrugem.
A meio do pômar, a direita, destacava-se entre todas, pela forma bizarramente recortada das suas folhas elegantíssimas, a árvore da frutapão. E lá embaixo, sobre o telhado vermelho do chalé, ela via a última estrela, pequenina e escura, da grande araucária do jardim. Sara continuava chorando, enraivecida contra a mãe. Por que consentiria ela em receber o rosas? Por que mudava de dia para dia o seu caráter? Por que se ocupava agora tanto consigo, passando horas no seu quarto sozinha, fugindo da companhia dos outros e aparecendo depois toda cheirosa, fresca, como a flor apenas desabrochada? Que mistério seria esse que ia afastando dela, evidentemente, todo o carinho e doce amor de Ernestina? Que falta teria ela cometido? Por que se adivinhava tão só?
Sem achar explicação para os seus tristes pressentimentos, Sara escondeu o rosto a invocar a memória do pai. Estava assim quando ouviu passos perto. Era a mãe que a procurava, entre zangada e aflita. Sara, que loucura é essa? Mamãe, levanta-te. A moça ergueu-se, comovida pelo tom severo da viúva. Ernestina continuou áspera e decisivamente. É preciso compreender bem isto. Exijo que sejam escorteias com todas as pessoas. Seja ela quem for que eu quiser receber em minha casa. Mamãe, eu... Se não desejo sujeitar-se à minha vontade, case-se. Ah, que vergonha! Mas mamãe, aquele homem, com aquele ou com qualquer outro, tens que ser delicada. Não, isso não. Aquele é um infame. Foi o maior inimigo do meu pai. Eu não o esqueço. E se ele voltar cá, eu bato-lhe na cara. Bato-lhe. Bato-lhe.
Cala-te. Quem manda aqui sou eu. Se o recebi, é porque entendi que eu devia fazer. Oh, mamãe! Vamos! E Ernestina, com o olhar seco, apontou o caminho de casa. Sara seguiu silenciosa, trêmula, ainda embaixo da raiva e desespero que tão intensamente tinham vibrado nela. Pesava com força, fitando a sombra da mãe que se projetava muitas guias ao seu lado. À porta da sala de jantar, encontraram o jardineiro que subira da cidade com garrafão de vinho ao ombro. Ela quis dizer qualquer coisa, a viúva fez-lhe um gesto que se calasse. Durante o jantar, a mãe e a filha não se falaram. Sara não comia, sentia um novelo na garganta e receiava chorar ali mesmo, diante dos criados.
A noite entrou cedo para o quarto, deixando a mãe sozinha no terraço. Ernestina não sofria menos. A indignação da filha as esperara, mas a sua submissão depois tinha a comovido. Afinal, reconhecia a razão na moça e chegava a envergonhar-se do seu procedimento. O Rosas tinha sido um inimigo acérrimo do marido. A questão entre ambos tomara um rumo tão perigoso que fora preciso intervenção de terceiro. O Nunes, como amigo mais íntimo do comandador, tinha se posto de permeio e evitado um desenlace terrível a negregada questão. Por muito tempo, o nome do Rosas tinha sido envolto no mais asqueroso desprezo. E Sara, que adorava o pai e comparticipava do seu temperamento, começou a ter pelo Rosas a mesma raiva, talvez ainda mais violenta que a dele. Depois da morte do Simões, esse sentimento de rancor havia se acentuado. A lembrança do pai enchia a de caridade para todos, menos para os que em vida o tivessem insultado ou feito sofrer.
Por isso, a viúva Simões entrava a ter remorsos e a preocupar-se muito com a opinião de Sara. O que diria ela quando soubesse de tudo? Pensava nisso quando sentiu o ranger o portão de ferro do jardim. Voltando o rosto, percebeu, através da meia escuridade da noite, o vulto de Luciano Dias, em que se destacava num fato escuro, uma nesga de colete branco. Ernestina levantou-se e disse-lhe, mal viu aproximar-se. Sei porque veio. O seu amigo Rosas contou-lhe tudo. É verdade. E já que abordou a questão tão abruptamente, deixe-me dizer-lhe que venho indignado.
Não sei por quê. Não sabe por quê? A culpada fui eu. Sara não tinha sido prevenida e... Não a desculpe, pelo amor de Deus. O Rosas não devia ter vindo. Eu estava louca quando o convidei.
Veio porque eu lhe pedi também que viesse. É tempo de se acabar com inimisades insensatas. Ele é um bom homem. Será, mas... Mas?
Sara teve razão. Não diga isso. Uma menina de educação não faz o que ela fez. Foi insolente. Ernestina levantou-se, muito ofendida, mas Luciano não lhe deu tempo de falar. Continuava muito nervoso. O Rosas descreveu-me bem nitidamente a cena.
Saiu envergonhadíssimo e furioso. Quando eu lhe digo que precisamos arranjar um casamento para sua filha... Ernestina mastigou, colérica. Um casamento? Sim. É indispensável para a nossa felicidade.
Isso assim não pode continuar. Bem-vê. Pode. Eu não quero que a minha filha se case. É minha. Amo-a. Acabou-se. Pensando friamente, Sara fez bem. O Rosas foi um inimigo acérrimo do pai. Não devia ter vindo.
Perfeitamente. Mas o pai está morto. O Rosas esqueceu ofensas. Veio exatamente para uma reconciliação. E não é a ela, menina sentimental e mal educada, a quem compete receber ou despedir este ou aquele indivíduo que entra em casa de sua mãe. Luciano...
Não, senhora. Sara foi brutal. Além de tudo, o Rosas é um velho e ela abusou da sua posição de senhora. Basta. Isto desgosta-me. E a minha ainda mais. Imagine. Caso-me. Bem. E então?
Hei de deixar de receber o meu melhor amigo em minha casa só por um capricho piegas da menina? Precisamos meditar bem em tudo. O que passou, passou. O Rosas era inimigo do pai? Que tenho eu com isso? É meu amigo e, portanto, da minha família. Lembre-se que nós ainda não somos a sua família.
Amamos-nos, queremos casar. E desde que isso suceda, as vontades dela ficarão em segundo plano. Terá de submeter-se a nossa. O que determinarmos é o que se há de fazer. É melhor explicar isso já. Falar-lhe no casamento é cedo.
Deixemos passar o ano de luto. Respondeu Luciano. Do luto? Mas onde está ele? Nela. É verdade que Sara persiste em andar de luto. A sua tolerância, Ernestina, é a que a tem perdido.
A sua filha é autoritária e caprichosa. Decida-se a fazer o que lhe tenho dito e aconselha-a de longe. Ela vai sofrer muito. Não. Embora. Tudo redondará em seu proveito. Não sei por que aborrece assim a minha pobre filha.
Se convivesse com ela, havia de adorá-la. É um anjo. O que vejo é que tem medo de maguala com uma simples palavra. E, entretanto, a mim não poupa desgostos. Eu? Sim. Meu Deus, mas como?
Referindo-se constantemente ao seu finado marido, não reprimindo o modo desabrido de senhora sua filha, conservando na sala bem em frente ao seu, o retrato dos simões, como o senhor legítimo de sua casa e do seu coração. Por que não retira dali aquele quadro?
Não calcula como ciúme o ódio que lhe tenho e o mal que lhe me faz. Desculpa as suas palavras porque elas são filhas do ciúme. Ernestine estava surpreendida e desgostosa com Luciano. A cólera tornava o grosseiro, áspero. O seu gênio rompia todos os preceitos da educação e do cavalheirismo
para se mostrar rude e indomável. Sara foi todo o assunto da noite. A mãe defendia-a, punha-a acima de tudo e de todos, como se fosse um símbolo da perfeição na terra. Fazia isso exatamente por vê-la acusada.
O seu amor maternal reagia contra todas as censuras num grande exagero. Luciano saiu cedo, impressionado e nervoso. A verdade era que os olhos de Ernestine inquietavam no mais do que ele desejava. Como disser ao Rosas, furtava-se ao casamento, procurando no amor da viúva uma dessas páginas de paixão
frequentes na vida dos homens. Ernestine, porém, sabia defender-se. Era muito mais forte do que ele poderia supor. Os seus planos de amor fácil iam se desmoronando e ele revolvia-se desesperado entre o desejo de possuir a mulher
e a má vontade de a chamar esposa. Não era positivamente como o marido que ele queria beijar a boca pequena e rubra da viúva Simões. O corpo esbelto e ondeante da moça, o negro azulado de seu cabelo farto, a doçura de seus olhos rasgados e úmidos, o moreno quente da sua pele rosada, ascendiam-lhe no coração não o amor puro e casto que o homem deve dedicar à companheira eterna,
mas o fogo sensual de uma paixão violenta e transitória. Ele amava-a, amava-a assim. Tinha ciúmes do passado, era sincero na sua cólera, odiava o Simões e a filha do Simões. Porém, em sua imaginação, o vulto de Ernestine aparecia teimosamente
engrinaldado de pampanos e de taça em punho, como uma bacante. Fim da sessão 6, gravado por Raquel Moraes.
- 07 - Capítulo 7
Sessão 7 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes. Avilva Simões de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 7. Capítulo 7. Corria o mês de agosto muito morno e ameno. No meio da bateria da cozinha, a Benedita ouvia o palavreado da Simplícia, que rodopiava pela casa, trazendo novidades e inventando coisas. O Augusto olhava com altiveza e desdém para aquela raça de mulheres, enquanto o hortelão se babava todo, ouvindo as tagarelices e a discussão das duas.
Simplícia tinha o bolso sempre cheio de dinheiro, moedinhas de prata e níqueis, subtraídos à gaveta da ama. Detestava o cobre. Fazia-se fina, com lacinhos de fita na gola do casaco branco e saias bem talhadas. A outra era fiel e ameaçava às vezes de ir direito à ama a denunciar a mulata. Simplícia levantava os ombros, que lhe importava que fosse. Como se aproximasse o dia de Nossa Senhora da Glória, ela afirmava que iria à festa de braço com seu Augusto, como se fosse marido e mulher. Os outros riam-se, vendo a indiferença e um certo ar de nojo do copeiro pela pequena.
Na véspera do dia da glória, a Simplícia foi direita à viúva pedir-lhe licença para a saída. Ernestina negou-lhe a. Mandaram a retirar da sala precipitadamente o retrato do comendador. Simplícia sorria sem ressentimento, vendo o Augusto e o João descerem a tela da parede. Aproveitava uma ocasião em que Sarah conversava com Georgina no jardim vizinho. Mal o hortelão saída da casa com o quadro, já a Simplícia rondava o portão à espera de Sarah.
Quando a moça entrou, a mulata disse-lhe. – Minha Sarah, a senhora sabe para onde é que Iaiá mandou o retrato de senhor? – Hein? – Seu João levou ele. Coitado de quem morre. Aquela piedade da negrinha pelo morto fez estremecer a moça com o movimento de amargurada indignação.
Subiu correndo até a casa e abriu com o estrondo a porta da sala. Ernestina voltou sem quieta. A filha olhava atônita e demoradamente para a parede vazia, onde se destacava numa mancha clara o bocado de papel até aí resguardado pela tela. – Por que tirou dali o retrato de papai? – perguntou Sarah a mãe com a voz alterada
e o rosto pálido. Ernestina corou. Disse de um modo confuso que o retrato precisava de reparo, que eu tinha mandado ao pintor que o fizera, e inventou um desastre em que um desajetamento do Augusto figurava como único responsável.
Tinha mentido e desviava a vista dos olhos claros da filha. Cedeira ao desejo de Luciano. O retrato do comandador tinha ido para São Cristóvão, para a casa de uma mulher pobre, a Josefa, que a tinha criado e a quem ela protegia com uma pequena mesada. Até então não se servira dessa criatura, que entretanto lhe aparecia agora como recurso
para segredos e aflições. Sarah retirou-se, desconfiada e tristônia. Ocorreu então a Ernestina ir à casa da ama e fazer voltar o retrato. Veio um clarão de bom raciocínio iluminar-lhe o espírito. Afinal, ela andava a fazer um papel de culpada, temia a filha como se o seu amor por Luciano
fosse coisa ilegítima ou criminosa. O que tinha a fazer era chamar Sarah e dizer-lhe muito simplesmente, Luciano e eu amamos-nos e casar-nos-emos em breve. Entretanto, vinham-lhe à mente os conselhos e pedidos do noivo, rogando que conservasse o seu amor e mistério.
E por sua vez formulavam um porquê. A que não podia dar solução. A Vilva Simões saiu sem se despedir da filha, desceu rapidamente o jardim, compondo sobre o rosto velzinho preto e sacudindo com as pontas dos dedos o plastron do vestido. Chegou afadigada à casa da ama.
A pobre mulher recebeu-a de braços abertos, como de costume. Ué gente, como iaia veio vermelha? Foi a sua primeira exclamação. E logo depois, foi levando para o sofá, tirou-lhe o chapéu, disse-lhe que descansasse para ir depois fazer lanche e apontou para o doce de coco em duas compoteiras na mesa.
Enestina deixava a falar. Estava indo ofegante, meditando no que devia dizer. De repente, diga Josefa, recebeu o retrato do meu marido, não recebeu? Pois então não haverá de receber. Está no quarto do oratório, mas há de se pendurar aqui em cima do sofá, como aquele
que não há outro homem, santo mesmo, não se case mais, iaia, que outro assim não acha. Cale-se, você nem sabe o que está dizendo. Como não sei, agora me diga, por que foi que me deu o retrato dele? Mandou copiar outro lá para a sala? Enestina não pôde deixar de sorrir àquela ingenuidade e atraindo a velha para o seu
lado, contou-lhe tudo. A Josefa era uma velhota caboclada, baixa e ossuda, de ombros largos e direitos, queixo quadrado e mãos grandes. Gozara a preferência entre os antigos escravos dos pais de Enestina, por ser de uma limpeza e fidelidade sem exemplo.
Toda sua roupa andava rescendendo as raízes do capim cheiroso, e ela era o braço direito da casa. Quando a senhora morreu, Enestina tinha só dois anos. A Josefa ficou encarregada de olhar por tudo, dirigia o serviço das outras, tratava da menina com esmero, trazendo-a sempre assiada e contente.
Alforriada não abandonou a casa, era teimosa, de humor desigual, mas firme e amorável como um cão. Tinha reminiscências muito claras de Luciano Dias, embirrar sempre com ele, farejar ali maus sentimentos. Tinha lhe feito um mal terrível, aprendido cartas, rasgado fotografias, feito desaparecer
muitos raminhos de flores por ele dirigidos à moça. Agora o que a comovia era a saudade de Sara. Já não tinha ascendente na família, nem a idade lhe consentia a mesma força de gênio. Estava quebrantada, mole. Apoiou por isso todas as ideias de Enestina, sem contestar nem aconselhar coisa alguma.
Dependia dela e temia ir de encontro aos seus desejos. Recebeu caladas confidenças, ficando por fim assente que no dia seguinte voltaria para Santa Tereza o retrato do comendador. Enestina saiu risonha, aquele desabafo, fizera-lhe bem. Percebia ter na Josefa um árrimo seguro.
Se por um lado a velha não a consolava, não sabendo aconselhá-la, por outro dizia a tudo amém e favorecia-lhe assim todos os seus projetos. Em caminho para casa, Enestina forjava uma mentira, preparando-se para sustentar o olhar claro e interrogativo da filha. Fim da sessão 7, gravado por Raquel Moraes.
- 08 - Capítulo 8
Sessão 8 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 8. Capítulo 8º. A Simplícia aproveitava a ausência de Ernestina, enchendo-se de goiabada, queijo do reino e cálices de licor muito bem repimpada numa cadeira da sala de jantar.
Sara conversava com a amiga na casa vizinha, Augusto fora cidade, e Ana estava no tanque às voltas com a roupa. E a Benedita coxichava com o hortelão lá para os fundos da casa. Podia estar tranquila. A Simplícia arremedava a senhora na maneira de estar à mesa.
Movia com delicadeza o cálice e dava dentadinhas pequenas no doce, sorrindo da sua finura a remoer ideias. A Tola da Iaiá estava ali nas unhas, conhecer o seu amor por Luciano desde o primeiro dia. Não que ela não tinha só habilidade para encontrar as coisas que as outras perdiam, nem para subtrair das gavetas, moedinhas e fitas.
Ria-se da cegueira de Sara. Ainda havia de ser ela quem lhe abrisse os olhos. Os cálices de licor sucederam-se até cair do frasco a última gota. Que estupidez! Ela ainda tinha tanta goiabada no prato. Lembrou-se do cunhaque.
Foi ao armário, mas deu-lhe uma tontura. O chão fugia ali embaixo dos pés, o guarda-prato inclinava-se, a mesa recuava, as cadeiras tomavam atitudes de dança e as aves mortas dos quadros das paredes agitavam-se todas, sacudindo as penas. Ué!
exclamou a mulatinha esfregando os olhos. E demorou-se percebendo a verdade o contato bastante para esconder a garrafa e levá-la para o quarto. Beberia à noite na cama. Não lhe convinha em bebedar-se de dia e foi pedir a Benedito uma xícara de café. Estava como enxaqueca.
Quando Ernestina entrou, a Simplícia correu a tirar-lhe o chapéu e guardar as luvas. Ernestina deu-lhe-as maquinalmente. Então, iaia, me deixei na festa? Não. Por que, seu Luciano, não quer?
Ernestina deu um salto, assustada, sem atinar com o que disser, e repetiu. Seu Luciano? Sim, senhora, pois então ele não está para casar com a senhora? Estás doida? Cala-te! Reprendeu a viúva, mas a Simplícia juntou com arma liciosa.
Iaia, não se zangue, não, mas eu vi outro dia seu Luciano dar um beijo na senhora. Lá na sala, perto da janela. Eu não conto nada a ãa Sara, mas a senhora há de me deixar ir na festa. Ernestina estava vencida. Entretanto, levantou-se com colérica, erguendo a mão para bater na negrinha.
Aquela ameaça a Simplícia saltou. Iaia, já não sou sua escrava. Se a senhora não me fizer as vontades, eu juro em como eu vou direitinha dizer tudo a ãa Sara. Que seu Luciano tem raiva dela e que dá beijinhos na senhora. O licor fazia ir muito mais longe do que premeditar.
A cabeça girava ali ainda um pouco e ela não podia conter a língua. Vi o seu erro, mas já não o sabia emendar. Declararam tudo. Tinha um plano antigo. Ir confidenciando aos caixeiros das vendas do Segredo da ãa Ma.
E ser a primeira a declará-lo a Sara. Se Ernestina não lhe desse consentimento para ir à festa. E ainda mais dinheiro e mais ainda ordem para que acompanhasse o Augusto. A viúva estava aterrada, com medo de levantar um escarcel despedindo a rapariga. E sem vontade de lhe fazer o gosto.
Mas a mulata venceu. E ainda Ernestina lhe pôs nas orelhas uns brincos de coral. E nas mãos uma nota de 10 mil reais. Vai! Ernestina chorou de raiva.
Por ela chamaria imediatamente Sara e diria toda a verdade. Mas Luciano opunha-se a isso tenazmente. E ela mesma esperava fazê-lo quando o visse mais propenso a estimar a filha. O seu terror agora era que Sara viesse a saber de tudo pela boca asquerosa da mulata. Resolveu mandá-la passar um tempo em Friburgo com a tia Mariana, viúva de Gustavo Ferreira.
Naqueles dias, ao menos, estaria livre de qualquer intriga ou revelação desagradável. Escreveu a Luciano largamente. Pedia que decidisse o casamento. A convivência faluía depois a Mara enteada. A seu ver, Luciano não esperava outra coisa se não vencer a antipatia pela pequena.
No dia seguinte, a simplícia, toda vestida de brã, com fitinhas verdes, descia ao jardim ao lado do Augusto, muito sério e bem arranjado. A Benedita acompanhava-os com a vista e quando eles em baixo abriram o portão, ela disse alto, em cima, sacudindo no ar a mão engordurada. Sapeca do diabo, que boa sova!
Fim da sessão 8, gravado por Raquel Moraes.
- 09 - Capítulo 9
Sessão 9 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes. Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 9. Capítulo 9. Em um dos primeiros dias de setembro, Ernestina partiu para Friburgo com a filha e a Georgina Tavares. Durante a viagem elas mal se falavam, abrindo muitos olhos para as paisagens soberanamente belas do caminho.
A tia Mariana já as esperava palestrando nagar com o empregado da estação. Era uma velha alta e seca, fiel ao uso da crinoline, com os bandós grisalhos que lhe tapavam as orelhas e umas sobrancelhas espessas que em vão pretendiam dar ar de ferocidade ao seu aspecto tranquilo. Passava por milionária e avarenta, mas em verdade a pobre senhora só tinha com o que viver regularmente e bem alimentar a criação de seus ricos bichinhos de seda, gozo único dos seus dias insípidos. Morava num casarão baixo, antigo, com janelas de peitoril para o largo e grande quintal plantado de amoreiras, de onde se via ao longe a cascata do Neves, desenrolando no veludo verde da montanha o seu lençol d'água cristalina.
A primavera desabotoava-se magnífica, num mesuberança de tons deliciosa, mas as meninas, afeitas ao clima do rio, andavam tiritantes, envolvidas em lãs. Nos primeiros dias a tia Mariana reclamava detalhes da revolução, maldizendo a República e chorando pelo imperador. O bom velho das barbas de neve, que ele tinha apertado casualmente a mão uma vez, havia muitos anos numa festa de caridade. Enestina fazia couro nas lamentações, mas não sabia explicar nada, o que desesperava a outra. Então Sara, mais indiferente, inventava detalhes que a velha ouvia limpando os óculos.
Um dia a viúva Simões decidiu-se a deixar as meninas com a tia e descer para o rio sozinha, com quanto um pouco assustada por aquela ousadia. Ela afirmava à filha que voltaria depressa, explicando alto repetidamente que não podia deixar a casa entregue aos criados. A Ana era cada vez mais exigente, todos os meses pedia aumento de ordenado e mais cerveja e mais isto e mais aquilo. O Augusto mudara completamente depois do passeio à glória do outeiro. Dormia de dia horas inteiras e ria alto com a simplícia pelos cantos, sem respeito nenhum.
O João andava doente, a Benedita com mal humor e secrável, e ela, confessava, tinha medo que lhe pusessem fogo a casa. A tia Mariana aprovava que fosse depressa. Isso de criados não há que fiar. Cada um faz o que pode para ser pior. Quando Ernestina entrou em casa, sentiu uma profunda e dolorida saudade da filha. Era o seu primeiro apartamento.
Toda tarde e toda noite não lhe poderam sair do sentido a voz e o vulto de Sara, a adorada companheira de toda a sua vida. Logo de manhã cedo escreveu-lhe uma grande carta cheia de recomendações, que se agasalhasse, que fizesse exercício, que lhe escrevesse sempre. Depois escreveu a Luciano e parou, com a pena no ar, pensando em qual daqueles amores a absorvia mais. Agora que Sara estava ausente, sentia por ela uma ternura esquisita, mais penetrante, que lhe ia até o fundo do coração, que afastava de todas as outras coisas, arredando mesmo para um plano mais nublado e indeciso a figura de Luciano.
Estranhava aquilo, aquele redobramento de amor maternal que a dominava completamente, absolutamente. Aproveitou pressurosa a frieza que lhe parecia então sentir pelo noivo e pediu-lhe na carta que não a fosse ver. Contou-lhe tudo. Sara estava longe, mas sentia bem que não a poderia conservar assim. Faltava-lhe o ar em casa sem ela. Não se resignaria nunca a viver daquele modo. Casala não era coisa admissível. Sara era ainda muito nova, concluía, pedindo mais uma vez a Luciano que dominasse a antipatia pueril que o afastava de Sara,
para viver em depois todos felizes, muito felizes. Ernestina acabou a carta chorando. Aquela harmonia sonhada e pedida não existiria nunca, percebia bem. Viveriam juntos, talvez, mas aborrecendo-se. Era isso mesmo que ela temia outrora, quando escondia em casa sua mocidade, o seu lindo rosto, a sua alma ansiosa à vida de amor. Era por isso mesmo que ela desejara sempre a velhice que a vestisse de gelo e que quebrasse os ímpetos, que a deixasse sem aspirações e sem desejos na sua grande virtude de mãe sem mácula. Ela pedia a Luciano que não a fosse ver, temendo que ele lhe desobedecesse. Entretanto era preciso. Estava só, tinha medo de sucumbir.
Nessa mesma tarde recebeu a primeira carta de Sara, escrita a mesma hora em que ela lhe escreveu com iguais pedidos e recomendações, com a mesma chuva de beijos, a mesma intensidade de afeto. Fim da sessão 9, gravado por Raquel Moraes.
- 10 - Capítulo 10
Seção 10 de Aviuvas Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes. Aviuvas Simões, de Júlia Lopes de Almeida.
Seção 10. Capítulo 10. Desdeixe-se de histórias. Peça a viúva e case-se. É mulher garantida. Vê-se por essas cartas. Afinal, você gosta dela.
Lá, por embirrar com a filha, não é razão? O caso é outro. Você é um galanteador e julga que as mulheres nasceram só para joguetes do seu capricho. Bonito! Ponha-se agora com frases. Ora, quantos amores já lhe conheci?
Mas o tempo passa. Vá ver seu espelho. Tem já muitos cabelos brancos e olhe que, por ter vindo de Paris, não pense que não haja por aí outros mais chiques. Luciano relia a carta de Sarah. A pequena não escreve mal?
É muito expansiva. Você não compreende? A mãe quer catequizar-me com as cartas da filha. E guardando os papéis no bolso. Bem, ela talvez deseje que eu lhe desobedeça. É até provável que conte com isso.
Acha? Ora, com certeza. Pois não vou. Há de chamar-me primeiro se quiser. Hoje vou passar a tarde com Clara Silvestre.
Não, com Henrique Bastos. Ele convidou-me para um passeio a São Paulo. Vou lhe dizer que aceito. Faz bem. Entretanto, Ernestina sentia-se febril, quase doente de ansiedade,
esperando o momento em que Luciano fosse pedir oficialmente a sua mão. Ele escrevia-lhe de São Paulo, mas as cartas iam rariando e as saudades crescendo. Ernestina foi duas vezes a Friborgo, afogava a filha em beijos e abraços, e voltava com uma enorme lista de encomendas, que acrescentava sempre com mais tetéias e gulodices.
Todavia sentia nessa dura experiência, ser impossível viver longe da sua querida Sarah, e teimava em prolongar a separação, pagando com lágrimas de saudade esse sacrifício. Três meses depois da ausência, Luciano voltou à casa de Ernestina,
e encontrou a indosse palestra com Dona Candinha Nunes. Sarah voltaria no dia seguinte. Ernestina estava radiante. Ele achou a pálida. Transparecia nela o cansaço da tristeza e da solidão,
embora a alegria do momento a sacudisse nervosamente. Passaram a tarde no jardim. À noite entraram para a sala, amobiliada de novo, e entretiveram-se vendo os arranjos e modificações feitas em tudo pela viúva para surpreender Sarah.
Dona Candinha exclamava, – Qual? Não há amor como de mãe. Vejo como a Ernestina pensa na filha. Luciano abanava afirmativamente a cabeça, vendo a Ernestina embaraçada, dateando as coisas.
Às dez horas, como Nunes não aparecesse, Dona Candinha disse, – Ora, o senhor meu marido esqueceu isso de mim. – Seu Luciano, acompanhe a minha cidade. – Até a sua casa, minha senhora.
Despediram-se. E Ernestina retendo a mão de Luciano disse, – Ela chega amanhã. Vem vê-la. – Certamente. Não puderam dizer mais nada.
Dona Candinha murmurava já fora. Que noite linda! Fim da sessão 10, gravado por Raquel Moraes.
- 11 - Capítulo 11
Sessão 11 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 11. Capítulo 11. Sara encontrou a casa toda renovada. Ernestina comprava mobilias caras e reposteiros de luxo.
Tinha aproveitado a ausência da filha para varrer pela porta fora todas as recordações do passado. O João encherou tudo de flores, desde a porta da rua até a do quintal. Muito contente com a volta da menina, que era a alegria da casa. A Benedita preparou surpresas para o jantar. Uns pastéis e uns pudins especiais feitos com prazer e capricho muito ornamentados.
A Simplícia pregou na carapinha um cravo vermelho e amarrou fitinhas no pescoço, dizendo fazer isso para ser agradável a Ña Sara. A Ana pôs no guarda-louça surrateiramente um queijo fabricado pelo pai em Petrópolis. E só o Augusto continuou indiferente no serviço. Sara tinha voltado de Friburgo com o doutor Tavares e a Gina.
Não se cansava de beijar a mãe, falando-lhe rente a cara. Sabe, fui pedido em casamento. Sim, sim, mas eu respondi que mamãe já me tinha prometido a um príncipe estrangeiro. Quem foi? Um velhote muito rico, mas muito feio, chamado Menezes.
Depois desse, quem também não desgostou de mim foi o Eugênio Ribas. Esse não chegou a falar em casamento, mas deu a entender. E confessou o doutor Tavares que me adorava. O Eugênio Ribas não é o moço louro amigo do Nunes? Esse mesmo, e aos bailes em Friburgo de casaca e luvas brancas.
Por aqui, há alguma novidade? Dona Candinha esteve cá ontem, veio convidar-nos para um baile masquê. Que bom! Começaram logo as combinações de toaletes, de idas à cidade para compras. Nessa tarde, quando Luciano abriu o portão do jardim,
deparou com Sara que ia muito risonha ao seu encontro. Estranhou-a. A moça parecia-lhe agora mais alta e mais elegante. Usava um vestido branco, transparente, que mostrava numa sombra tênue a sua carnação de loura alva e rosada. Aquele traje dava-lhe um ar encantador de alegria e de ingenuidade.
Até então vira sempre de escuro, vacilando entre o cinzento e o preto tristonho do luto. Os tons claros iluminavam-lhe a fisionomia numa doce radiação de poesia e de graça. Entre depressa, exclamou ela, senhor ingrato que não me mandava nem sequer saudades por intermédio da mamãe. E fique desde já sabendo que para o seu castigo tem de desenhar hoje mesmo uma toalete de fantasia para esta sua amiguinha. E puxou o rindo para dentro, segurando-lhe a mão.
O ciano deixava-se ir, encantado com aquele acolhimento. Estava num dos seus dias de bom humor e o passeio a São Paulo. E a ausência de Ernestina, cujo amor o enervava, tinha-lhe temperado os pobres nervos doentios. Sentia-se saudável e tranquilo naquela tarde. Passaram todo o tempo da visita combinando fantasias para o baile de Dona Candinha.
A despedida, Sara perguntou. É verdade, mamãe já foi ver a sua coleção de quadros? A coleção de quadros? Quem ouvisse diria que possui uma galeria. Está arrependido do convite que nos fez ou grasejava quando nos relatou objetos artísticos e mais trapalhadas adquiridas na Europa?
Não menti, que desde já lhes digo é que a minha coleção é pobre. Mas façam uma coisa, vão lá amanhã, por exemplo. Está dito, valeu mamãe. Ernestina consentiu. Nesta noite ela foi dormir contentíssima. Pareciam feitas as pazes entre Sara e Luciano Dias.
No dia seguinte, às duas horas, desceram de Santa Teresa. A tarde estava quente, de um azul carregado. A casa de Luciano Dias ficava perto, na rua do rio Achuelo. Era de uma aparência simples, fachada sem estilo, de um tom cinzento com frisos dourados nas janelas de peitoril. Entraram dentro uma pequena escada de mármore quando usava a saleta de onde Luciano desceu a recebê-las.
Ernestina estava comovida, Sara curiosa. Momentos depois, conversavam no pequeno salão de Luciano, como ele afrancizadamente chamava a sua boa sala. Nas paredes de verde escuro, encaixilhadas em madeiras finas, destacava-se uma multidão de objetos e pequenas telas. Medalhões históricos, baixos relevos, adagas e punhais, recordações de turista, insignificantes para os indiferentes. Aqui, um punho da mais rara merlete veneziana, ali um mosaico de Roma, um ramo da flor dos Alpes, a penugenta e delvais,
uma faca de tolera encrustada de ouro ou um leque de Madrid. Sara ia observando tudo como xoxos de desilusão, até alegrar-se com a vista de uma formosa cabeça de mulher, que surgia risonha e fresca do fundo cor de aurora da tela. Ernestina sentara-se num divã, procurando prender toda a atenção de Luciano, mas este respondia-lhe apenas, lisonjeado com a observação que Sara prestava a tudo, comemorando os objetos, indo e vindo de um lado para outro,
fazendo-lhe perguntas, apontando como feias as antiguidades que ele achava lindas, extasiando-se às vezes em frente de outras coisas que considerava medíocres. Tudo que tivesse um ar de alegria ou de saúde era o que vibrava na moça maior entusiasmo. Um grupo de crianças, um aldeã robusto, um pescador banhado de sol, um ramo de papoles sanguíneas ou de frutas bem desenhadas e frescas, rebentavam-lhe dos lábios vermelhos, frases de espontânea admiração.
Os assuntos diabólicos, nervosos, os quadros torturados em que, em fundos torros, se extorcessem corpos aflitos ou relampejassem olhares de agonia, de dúvida ou de ódio, tudo em que a dor domadura, atrocíssima e amaga, derramasse o seu travo ou fincarse o seu dente impiedoso, tudo em que a arte reproduzisse a lágrima e o sofrimento humano, arrepiava as carnes sadias de Sara, para quem a vida tinha só por dever ser risonha, ser boa, ser fértil. Os seus olhos de menina inexperiente não compreendiam os requintes artísticos de um ou de outro autor,
mas a sua alma entusiástica abria-se com alegria as impressões da arte. Enestina passou a olhar através do lorrignon por tudo que a rodeava, sem demonstrar claramente as suas predileções, temendo cair em erros de observação. A filha malou bem e ia apontando defeitos e belezas, manifestando sem rebulso a sua maneira de ver e de sentir. A cabeça do garoto, elogiada por Luciano, fez com que a moça batesse palmas de contentamento.
O busto, talhado em mármore, tinha energia, graça e independência, qualidades que se juntavam no caráter de Sara. A moça não pôde conter-se e, com os olhos úmidos, beijou nas duas farças a cara rechonchuda do pequeno garoto de Paris. Luciano estremeceu, como se alguma coisa nova se tivesse revelado nele. Enestina murmurou repreensivamente. Sara, que criancice!
Ah mamãe, se este diabo é tão bonito, repare para os olhos, que malícia! E para a cabeça, que audácia! Não parece mesmo que esta boca está gritando Viva a França! E que neste peito bate orgulhosamente o coração. Estiveram algum tempo de pé em frente ao busto.
Depois Luciano conduziu-as para outra salinha interior, onde mandaram a preparar uma mesa de lanche. Sobre o linho escarlate preto da toalha, brilhavam pratos finos de bombons, frutas e golosemas variadas. A Viva tirou vagarosamente as luvas, sorrindo com sossego para Luciano, que lhe dava lugar de honra a cabeceira. Sara, sem esperar por convite, sentou-se dizendo alto. Não é uma coisa, para mim bastam as luvas.
O que peço é que não se admire se eu comer todas. Luciano chegou para ela a cestinha das luvas e sentou-se entre as duas senhoras. Enestina recendia Sherry Blossom e as suas mãos bem tratadas moviam-se vagarosamente acima dos pratos ou do linho escuro da toalha. Por toda ela descia um ar de tranquilidade e de aventura, fixando em Luciano um olhar calmo, como a esposa feliz. Em Sara, um olhar de mãe confiante.
A moça, numa gourmandise inotável, ia dando cabo das uvas brancas, falando sempre, enchendo a casa com sua voz fresca e com seus risos gorjeados. Nessa tarde, Luciano não saiu. Sentou-se preguiçosamente a ler no seu escritório, mas a própria leitura fatigava-o e abandonava de vez em quando o livro. Relembrando a graça de Sara, a onda de alegria que ela espalhara por toda sua casa, os seus ditos, a singular mudança dos seus traços, do seu caráter e até da sua roupa. Nas duas horas em que ela estiver ali, quantas coisas notara.
Tinha ele feito observações justas e lembrado coisas em que ele agora repararia. Aquela colcha de veludo preto, suspensa na biblioteca, fazia lembrar um pano de enterro. Era uma fantasia de mau gosto. O piano deveria estar longe da janela, o busto do garoto mais voltado para a luz. A sala dos quadros não devia ter cortinas e faltava um tapete de fundo vermelho no escritório. Tudo isso ela dissera à Valle d'Azur no primeiro relance.
E ele percebia agora que ela tinha razão. Era como se de repente o vácuo da sua casa solitária se tivesse tornado em um corpo de mulher moça e contente e lhe reclamasse tudo o que lhe faltava. E parecia, ele então, que Sara fora momentaneamente a alma daquele ninho que lhe enfeitava, amava e que encontrava sempre mudo, frio, morto, incapaz de corresponder ao seu carinho. E Ernestina? Pareceu-lhe nesse dia um pouco avalentada, medrosa de expansão.
E teve pena daquela alma de criança fechada em um corpo já em decadência. Entretanto ela era mais formosa que a filha. E não era a filha, certamente, que ele amava. Desde esse dia, Luciano não deixou de ir nenhuma sua tarde à Santa Teresa. E era sempre Sara quem o vinha receber, enquanto Ernestino esperava risónia e calma na sua varanda entrelaçada de flores.
Fim da sessão 11, gravado por Raquel Moraes.
- 12 - Capítulo 12
Sessão 12 de Aviuvas Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Aviuvas Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 12. Capítulo 12. Chegou a noite do baile masqui. Fazia calor e luar.
O céu tinha poucas estrelas, mas muita luz. Ernestina trajava um dominó a fantasia, muito unido ao corpo, de seda e rendas pretas, com longa cauda. E capuchão segurou o cabelo por brilhantes esplêndidos. O seu desejo era ter ido decotada, com traje farfalhante e claro. Mas teve medo da crítica e absteve-se, preocupada sempre com a opinião dos outros.
Às 10 horas entraram no baile. O Nunes abria os seus ricos salões burguesas num esplendor de luzes e de flores. Não tiver espírito para reviver na sua festa uma época histórica qualquer, em que tudo convidados e casa fosse submetido rigorosamente ao estilo e ao figurino do tempo reproduzido. Negociante rico e feliz, pouco afeito aos requintes literários,
satisfazia com descendente e bondosamente ao capricho da esposa, proporcionando-lhe o ensejo de mostrar a sua casa e os seus jardins, formosíssimos. Luciano esperava Simões na saleta da entrada. Ele riu-se, vendo Sara com um vestuário diverso do que haviam combinado. Tinha lhe aconselhado o romântico costume de margarida, que lhe fazia valer a beleza das tranças.
E ela aparecia ali numa toaleta extravagante, sem origem bem determinada, em onde o ouro e o vermelho se embaralhavam indiscretamente. Era uma verdadeira boêmia de opereta com pandeiro, cabelo solto, braços nus, saia redonda tilintante de moedas. Sara zangou-se ao deparar com Luciano em casacado.
Foi logo direto a ele, dizendo que se todos fizessem o mesmo, não teria graça nenhuma ao tal Baile Masqué. Depois de um mochoucho, acrescentou. Estou bem? Está linda. Se eu não lhe falasse agora, o senhor não me reconheceria.
Mamãe acha minha toaleta vulgar. Eu estava morta por saber a sua opinião. Ainda bem que me acha bonita. Ernestino ouviu tudo imóvel, sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha. Luciano não desviava a vista da cabeça loura da filha, onde flutuava a ponta de um lenço de seda vermelha.
Nessa noite, ela não lhe pediu como acostumava. Dança com minha filha, sim? Ao contrário, desejava afastá-lo de Sara. Entretanto, eles dançavam juntos. A gente de boêmia fazia tilintar as moedas da saia em uma alegria barulhenta.
Estava feliz nessa noite. Tinha ditos de espírito e havia sempre um grupo de rapazes a cortejá-la muito. O Eugênio Ribas não a perdia de vista, procurando todas as ocasiões de estar a seu lado. A coisa chegava a dar na vista. Algumas pessoas diziam mesmo que o Eugênio já era noivo da Sara Simões.
O Nunes, velho amigo de Ernestina, julgou prudente a divertir o moço. E ele, lealmente, confessou adorar a filha da viúva e esperar só um momento oportuno para fazer-lhe a sua declaração. Ernestina soube depressa da resolução de Eugênio e sentiu um alívio inexplicável. Entretanto, Luciano, num zelo de pai, começava a achar imbirrativa a assiduidade do outro. Sara ia o levando também inconscientemente atrás de si, de sala em sala, risonha e descuidada,
dando-lhe sempre a preferência, distinguindo-o entre todos os outros. Ele seguia, sem saber porquê, obedecendo a um sentimento de proteção que julgava dever dispensar-lhe. A uma hora estavam no jardim. Como a noite estivesse quente, seguiram até o fundo ao paredão que dava sobre o mar. Pelos reuvados, circundavam linhas multicores de copinhos luminosos e um foco de luz elétrica partindo do centro do jardim derramava sua luz de afna sobre a verdura reluzente dos arbustos e a brancura marmórea das venos e das bacantes nuas.
A vegetação abundante e incomparável do rio exibia ali os seus mais encantadores exemplares. Palmeiras variadíssimas, fetos enormes misturavam seus leques e as suas rendas às carnudas begônias, às avengas sutis, às parasitas de formas artisticamente rebeldes e fantásticas, às rosas, aos cactos, aos jasmins, às flores ardentes e rudes e às flores idealmente brandas e leves como flocos de espuma. A folhagem vermelha e cor de ouro velho do croton tinha a seus pés os tapetes rosa e dourados dos jasmins manga,
caídos como um chuveiro de perfume de luz dos galhos claros da árvore. Luciano continuava ao lado de Sara, sem saber mesmo por que. Considerava-se agora o seu protetor e o seu guarda, um zelo mais do que paterno. A moça fugira um pouco à assiduidade importuna do Eugênio Ribas. Confessara isso mesmo a Luciano numa confidência amiga e sincera. A intimidade a que Ernestino os obrigara autorizava aquilo. Sara encostou-se no paredão, olhando para o mar. Uma expressão de indefinível doçura espalhou-se-lhe pela fisionomia até a irradiante de alegria.
Sobre a sua cabeça estendia os braços uma formidável magnolha escura em que as flores pálidas vazavam dos seus copos marfíneos o aroma da paixão, violento e entontercedor. Ao longe do pavilhão das epoméias, vinham os sons da banda com seus clarens sonoros e lá em cima, no azul tranquilo do céu, a lua rolando lentamente. Luciano contemplava estático a órfã do seu velho rival. Ela tinha os braços nus, brancos e roliços, estendidos para frente. As mãos sobre as pedras asverdeadas do muro, os olhos entrecerrados acompanhando as ondas que iam e vinham brandamente, queixosas.
Luciano contemplava-a assim, achando-a bizarra naquele traje quente que envolvia como uma injúria o seu corpo delicado e virginal, sentindo-a ao mesmo tempo mais cândida, mais ideal, mais doce do que nunca. Aquela cisma e súbita melancolia da moça tornava-na como uma imagem de santa milagrosa que ele tivesse visto surgir por encanto daquelas flores ou daquele mar. Ora desejava vê-la sempre assim, imóvel e serena. Ora sentia ímpetos de a beijar, de a morder, de lhe dizer que a amava. Sara prendera a meia máscara de viludo ao cinto e no seu rosto largo, onde sempre a expressão de lealdade tinha suprido a falta de delicadeza, iam agora rolando duas lágrimas.
— Em que pensa? — perguntou-lhe Luciano comovido, segurando-lhe a mão. — E meu pai, sinto remorso desta alegria que tenho tido hoje. — Que criancice? — Será. Mas que quer? Ele era tão bom, amava-me tanto. E depois, bem sabe, é a primeira festa que eu assisto aqui, nesta casa, onde tantas vezes vim em sua companhia. Ele era íntimo desta família. Papai e o Nunes eram como se fossem irmãos. Sara, excitada pelo excesso da dança e pelo aroma das flores, fosse a falar do comendador, relembrando seus carinhos, o extremoso cuidado que lhe dedicava, a maneira por que se fazia criança para brincar com ela, a sua solicitud e bondade, o modo piegas com que a tratava, chamando a Jojóia meu bem. Citava fatos, descrevendo a sua caridade modesta, a sua honradez sem mácula e a retidão do seu espírito. Dava ao pai uma aurela de santidade, sem esconder contudo a rigidez austera do seu caráter.
Luciano a ouvia com uma atenção silenciosa, simpatizando a pouco e pouco com esse homem que ainda havia alguns dias odiá-la e que ele parecia agora outro através das saudades e das palavras de Sara. Não analisava os seus sentimentos. Esquecia todo o passado ao influxo daquela ternura filial, daquela voz argentina molhada de lágrimas que vibrava no ar perfumado da noite como a doçura de sonho. Compreendia agora bem o coração extremoso e leal da moça. Sentia a forte, fiel, sincera e justiceira, alma feita para esposa e para mãe, capaz de todas as lutas, digna de todas as glórias. Caia por terra o seu ciúme raivoso e ele desejaria agora ver o Simões reassumir milagrosamente o seu antigo posto ao lado de Sara e ao lado de Ernestina. Quantas vezes a viúva lhe tinha respondido quando ele maldizia o marido?
Ele morreu e ter ciúmes de um morto é uma insensatez. Não, redarguia-lhe Luciano, eu preferiria ter ciúmes de um vivo com quem pudesse lutar e a quem pudesse vencer. Mas se ele não tivesse morrido, eu ainda seria casada? Era sempre esta frase que tapava a boca de Luciano, até que ele, entre risonho e agastado, concluía. Sim, ele teve ao menos o juízo de morrer a tempo. Entretanto, Luciano ouvia agora, com respeito e comoção, o nome daquele homem havia pouco detestado.
O coração abria-se-lhe a um sentimento novo de simpatia e de piedade. Sentindo-se compreendida, Sara desabafou as suas mágoas. Referiu-se à história do retrato do pai, à mudança inexplicável do gênio de Ernestina, à maneira com que tirara o luto antes do tempo e o seu nervosismo, o modo porque evitava falar do marido cujo nome deixara de soar em casa. Aquela ingratidão é que lhe doía muito.
Agitada pelas danças, pela música, pelo brilho da noite e o aroma voluptuoso das magnólias, Sara expandia-se na embriaguez da dor, falando sempre, revendo-se no olhar de Luciano. Ele deixou-se envolver de tal sorte que se indignava contra Ernestina, esquecido de que tudo que ela fizera tinha sido a pedido e aconselho seu. E olhava para Sara amorosamente, embevecidamente. Atrás deles, suspensos das árvores e difestões de folhas, pendiam as lanternas multicores, como fitas luminosas apanhadas aqui e além pela mão invisível da noite.
A música do jardim tocava uma fanfarra, os sons dos clarins vibravam trêmulos e límpidos espalhando pelo espaço uma grande sonoridade. Ernestina aproximou-se de um braço dado com Nunes e chamou a filha, com voz irritada e áspera. Sara baixou humildemente o rosto, iluminado por uma comoção feliz. Seguiram ambas para a toalete, à procura das capas. Fim da sessão 12, gravado por Raquel Moraes.
- 13 - Capítulo 13
Sessão 13 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 13. Capítulo 13. Ama Josefa arrematava uma costura quando sentia um farfalhar de sedas pelo corredor. Hum, gente, como o iaia vem bonita.
Escute, Josefa, atalhou Ernestina. Eu hoje espero uma visita aqui, em sua casa. Preciso da sala, ouviu? A casa é toda sua. Que horas são? São duas?
Não pode tardar. Josefa correu à sala para tirar de cima do sofá e das cadeiras camisas engomadas dos fregueses que ela tinha estendido, cobertas com uma tarlatana cor-de-rosa. E nesse trabalho, ia pensando que a Ernestina era uma tonta,
mesmo uma criatura sem juízo. Por que diabo não se casará a ela de uma vez? Quando voltou para dentro, encontrou a Avilva Simões em frente do espelho, compondo os anéis do cabelo. Mirou a toda, nenhum vestígio de luto no seu traje.
Ernestina levava um vestido de seda mole, que ele caía rente ao corpo, mostrando-lhe as formas delicadas da cinta, do seio e das pernas. Tinha nas orelhas duas safiras, a pedra da felicidade, que sorriam nas suas centilações como dois olhos de anjo rebelde. Por toda ela escorria um aroma quente.
Esse vestido é novo? Perguntou a ama. É. Não vê que tem a cor da moda? Azul ou cinzento? Azul elétrico. Ah, não sei que mais aonde inventar.
E aí agora anda muito chique. Ernestino sorriu. Mas depressa, sobrancelhas contraíram-se, formando-lhe uma ligeira ruga acima do nariz. Esteve um momento silenciosa, pensativa e imóvel. Tornou, porém, depressa, a alisar com a mão a seda do corpinho.
Tirou do bolso uma caixinha redonda, pouco maior do que uma noz. Abriu-a, puxou um pompom quase microscópico e agitou-o sobre o rosto com toda a sutileza, espalhando uma nuvenzinha de pó de arroz. E aí, a sempre dizia que não haveria de usar nunca essas coisas.
Observou a ama. Eu era moça e hoje... Houve um relâmpago de ódio a fuzilar-lhe nos olhos. É velha? Perguntou a outra, rindo. Ernestino não respondeu.
Limpava com a ponta da toalha umedecida na água as pestanas e as sobrancelhas, que se desenhavam negras e finas numa leve curva harmoniosa. Depois sacudiu os ombros com lenço, examinou os dentes, as unhas e prestou o ouvido atenta, sem tirar passos. Mas os passos passaram e ela então disse com um sorriso irônico.
Uma mulher apaixonada nunca deveria envelhecer? Bateram. Josefo correu a abrir a porta da sala. Ernestina relanciou a vista para o espelho e murmurou num desafio quase triunfante. Sara, vamos a ver qual de nós duas vence?
Dois minutos depois, ela entrava na sala. Luciano foi ao seu encontro com um modo embaraçado, com quanto afável. Ernestina fixava-o com altivês. Chamou-me e aqui me tem, disse ele procurando sorrir. Compreende porque não lhe pedi que fosse antes a minha casa.
Não, não, não. De veras? E riu-se. Depois num tom hora precipitado, hora lento. Pois vai compreender?
Trata-se da minha filha? Luciano não pode reprimir o movimento de surpresa. A viúva observou-o um instante e continuou. O senhor tem tido várias vezes a bárbara franqueza de me dizer que a não pode suportar. Ela, além de todos os defeitos da má educação,
tem a enorme desvantagem de ser o retrato do pai. E agora, refletindo em tudo isso e de acordo com uma ideia sua, já mais de uma vez manifestada, resolvi uma coisa. Casá-la. Luciano estremeceu, mas continuou silencioso e sério.
Ernestina tinha um olhar cravado nele, procurando estudar-lhe os gestos e penetrar-lhe no pensamento. Aquele olhar cheio de fogo e de paixão perturbava o tanto como as palavras que ia ouvindo. É já tempo de lhe declararmos o nosso amor e os nossos projetos. Para que o casamento se realize, é forçoso separar-me dela. Assim o senhor me tem dito.
Aconselhe-me agora. Luciano quis falar, mas deteve-se. Ernestina esperou um segundo. Por que não responde? O senhor nunca teve cuidado de esconder de mim o mal que ele queria?
Eu vi muitas vezes que a achava intolerável, mal educada, autoritária, feia e antipática. Foi por sua causa que eu a mandei para Friburgo? Foi por inexplicáveis pedidos seus que escondi até hoje as nossas intenções? Como se elas fossem criminosas? Não me tem custado pouco o mentir a minha filha.
Acredite. Se ela não tivesse por mim a veneração, o amor absoluto que me faz parecer a seus olhos, a mais pura e a melhor das mulheres, que julgaria de mim? Muitas vezes o senhor me tem dito que pareça indiferente ao seu amor e fria. Entretanto fique certo de que a minha frieza e indiferença tem me custado um grande esforço.
Porque bem sabe que eu o amo com veemência, que eu o amo com paixão. A voz de Ernestina tinha uma sonoridade nova, ondeando entre a censura e a queixa. E a maneira acentuada e firme porque falava, revestia de um encanto singular. Houve uma pausa. A viúva Simões cortou-a com a Zedume.
Devemos casar Sarah quanto antes. Casá-la? Bobuceu Luciano como um eco. Sim, o Eugênio Ribas ama e como é seu amigo, lembrei-me de uma coisa. É verdade.
É certo. E o que o senhor tem a fazer é o seguinte. Vá ter com o Eugênio. Prontifique-se a pedir a mão de minha filha. Depois. Depois.
Vá à minha casa e consulte a opinião de Sarah. Elogie o rapaz, que é na verdade digno. Em seguida poderemos declarar-lhe as nossas intenções. Ernestina falava com uma linguagem estudada, reprimindo sentimentos, domando-os por um esforço de vontade que já não podia sustentar.
Contemplaram-se por um tempo silenciosos. Luciano com espanto. Ernestina qual tiver-se. Por fim, ele disse baixo num tom magoado. É impossível.
Impossível porque não tem sido o senhor mesmo a insinuar, a aconselhar, a exigir mesmo que eu case minha filha? Além de tudo, ela ama o Eugênio? Ah, adora-o. Confessou-lhe isso já?
Perguntou Luciano. A viúva não teve coragem de sobrecarregar a sua impiedosa mentira. E corando-se um pouco, acrescentou. Sei que ela o ama, vive a falar nele a propósito de tudo. Basta ouvir-lhe o nome para embarassar-se.
Surpreendi-a pedindo a Georgina notícias dele. É natural. São ambos moços, são ambos bonitos. Sim, são ambos moços. Luciano baixou a cabeça, entresdecido por aquela confidência,
pensando na felicidade do outro. Ernestina compreendeu, talvez, e agarrou-lhe a mão com doçura, falando-lhe baixinho e tratando-o por tu pela primeira vez. Oh, meu Luciano, como eu te amo, como eu te quero bem. Havemos de ser felizes há tantos anos, já que sonhávamos com essa felicidade.
Eu era ainda menina, quando vesti o meu primeiro vestido de mulher eu já te amava. Foste tu que despertaste o meu primeiro sonho. Serás tu que me feche caridosamente os olhos quando eu morrer, beijando-me. Meu marido, meu marido, Luciano, lembro-me ainda de todas as palavras que me dizias há vinte anos.
Diz-me outra vez que me amas. Estás triste? Eu daria todo o meu sangue para que fosses feliz. Amo-te assim. Luciano ia sentindo reviver, pouco a pouco, seu amor.
Sara amava outro que amasse. Era tempo de acabar com aquilo, que se casassem depressa e lhe fugissem dos olhos. Ernestina falava agora, falava sempre, já sem calma, febril, desatando frases de queixa, de censura, de desespero e de amor, deslumbrando Luciano com a sua voz quente.
A sua formosura miraculosamente rejuvenescida, nessa hora de enlevo e de paixão, ardente e concentrada. Ele já não a observava com reserva, mas com admiração. A pouco a pouco a palidez mate o luminoso olhar da viúva, toda aquela febre em que ela se revolvia,
iam lhe acendendo desejos de a apertar nos braços. Ela percebeu isso e postou-se de fronte dele com o corpo arfando sob a seda mole do vestido e a cabeça inclinada, como a pedir-lhe beijos. Luciano ergueu-se desvairado e quis beijá-la.
Ela furtou-se a isso nos movimentos arredondados e lânguidos e baixando a cabeça muito risonha e feliz, disse-lhe quase num murmúrio. Depois. Foi então Luciano quem prometeu ir falar ao Eugênio
e combinou a maneira de o fazer sem indescrição. A viúva envolvia-o num longo olhar voluptuoso e perturbante. Ele ia prometendo tudo quanto ela queria e mandava. – Amanhã ficará tudo acabado? – perguntou-lhe por fim Ernestina.
– Assim eu espero. Adeus. Nessa tarde, Ernestina, ao tirar no seu quarto o lindo vestido de seda, parou em frente ao espelho, olhando para os braços e o colo nus,
de um moreno delicado que a luz tingia de um reflexo dourado. Contemplou-se por muito tempo e concluiu triunfante. – Sara é moça, mas eu sou mais bonita. Luciano saíra tonto. As palavras de Ernestina ao seu corpo esbelto,
as atitudes provocantes, o aroma forte que a envolvia e aquela cena de paixão e de enleio tinham-no alvoraçado. Ele acostumara-se à serenidade um tanto fria da moça, o seu amor por ela já ia se tornando num hábito mais digno do nome de amizade.
Agora, porém, as coisas mudavam e ele sentia que iam mudando a tempo. Durante todo o resto do dia, vibraram nos seus ouvidos as expressões queixosas de Ernestina e as narinas dilatavam-se-lhe, sentindo como quem preguinada
a essência dela no seu fato, na sua própria pele. A tarde deveria procurar o Eugênio, mas as primeiras horas da noite ainda o encontraram em casa e em casa ficou sem resolução, atado. A verdade era que com o correr das horas,
Ernestina ia cedendo lugar à filha e ele sofria querendo e não podendo cumprir a extravagante missão que lhe dera a Simões. Luciano mesmo estranhava aquela indecisão. Sara não lhe era nada.
Havia poucos dias apenas que percebera que ela não era feia e que tinha espírito. Procurava abster-se de pensar nela, mas o pensamento teimoso voltava a reproduzi-la num deleite amargo. A proporção que o tempo avançava
ele enfraquecia no propósito de obedecer a viúva. Não compreendia agora o amor de Sara por Eugênio Ribas. Supunha a confidência de Ernestina um estratagema. Ele tinha julgado ler nos olhos de Sara essas estranhas popilas ora-castanhas ora-azuis
alguma coisa de infinitamente doce, uma promessa, um sonho, um voo de pensamento que parecia dirigir-se a ele. Com a ausência o vulto de Ernestina ia se esfumando no seu espírito
e numa erradiação de luz ele via Sara dizendo-lhe na sua grande franqueza Amo-a! E era toda essa graça, lealdade e candura que ele ia oferecer a outro, a um estranho
que não a compreenderia nunca talvez. Esposa! Ele também a preferiria para esposa queria ser ele a conduzi-la ao altar e chamá-la minha.
Em toda a sua vida era a primeira vez que essa palavra simples assumia no seu pensamento proporções tão belas e Sara veria de sagrar essas três sílabas divinas com as suas qualidades perfeitas. Seria esposa amorável e honesta
a quem a mentira repugnasse e o sacrifício aprovesse. Não se resignando a falar ao Eugênio Ribas nesse mesmo dia Luciano sentou-se à mesa e escreveu longamente a viúva Simões.
Alegou necessidade urgente de partir nessa madrugada para Minas para onde o chamava por telegrama e o apoiou como parente moribundo. Adiava tudo para a volta? Luciano escreveu aquilo com a convicção de poder
mais tarde vencer a sua vontade e apressar o casamento de Sara entretanto percebia bem se Ernestina era para ele a mulher de fogo que ele queimava a carne a filha era a mulher de luz benéfica
que iluminava o futuro e ele amava a ambas a outra com o coração.
- 14 - Capítulo 14
Sessão 14 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 14. Capítulo 14. Fazia um calor abafadiço e medonho. Pelas janelas abertas da sala, via-se a cidade coberta por um pesado véu cinzento da atmosfera enfumaçada e densa.
As plantas enlangueciam-se no jardim e a areia fazcava na sua alvura brilhante. Enestina estava na sala, onde o retrato do marido reassumir o seu antigo posto. Caíram num grande abatimento. A carta de Luciano tinha a amargurado. Era evidente que ele fugira à entrevista com Eugênio Ribas.
Amaria então muito a filha? Era isso que a desesperava? Compreendia finalmente que não soubera inspirar a Luciano mais do que uma paixão carnal. O coração e o espírito tinham vivido alheios. Ele quiseram um galanteio e ela dera-lhe todo seu amor.
Envergonhava-se de ter sido tão crédula. Se o tivesse tratado com desdém, ele adoralaia. Talvez, pensava ela. Tornou a ler a carta e amarrotou-a com desespero. Vendo fugir o noivo, sentia recrudecer a sua paixão.
Amava-o como nunca. A rivalidade com a filha exacerbava isso. A mocidade de Sara era sua tortura. Envejava aqueles 18 anos. Aquela alma primaveril.
Aquele rosto fresco e tranquilo. Estremecia com medo da velhice. Da sua fatal e terrível decadência que sentia já perto. Muito perto. Suprimir Sara pelo casamento era o seu sonho de ouro.
Na sua imaginação doente surgiam ideias extravagantes. Pensou em ir, ela mesma, procurar o Eugênio Ribas. Ou fazer-lhe constar pelo Nunes que daria um grande dote à filha. Ernestine era delicada e repeliu depressa essa lembrança. Serias por a filha comentários.
Isso nunca. Como sai daquele embaraço? Queria vencer custasse o que custasse. Seria abominável que Luciano lhe fugisse uma segunda vez. A sua esperança era de que a filha não retribuiria nunca o amor dele.
Ernestine imaginara que haveria de ser cada vez mais amada. Exatamente por não ter cedido aos desejos e solicitações do noivo. E aí escrevia agora desmoronarem-se todos os seus cálculos e aspirações. Enraivecia-se contra Luciano. Imaginava os mais estranhos e esquisitos meios de prendê-lo a si.
Já não importava tanto que ele amasse a outra. Quanto que se casasse com ela. Ser abandonada, sendo formosa e livre era uma monstruosidade. Depois Ernestine já se humilhava a que o Luciano se deixasse amar. Unicamente desde que pudesse dizer alto à vista de toda a gente,
a verdade que se pultava na alma havia tanto tempo. Ser feliz com ele, por ele, dedicar-se-lhe completa, absolutamente, era o seu sonho. Tinha fé que todo seu carinho, todo seu amor e cuidado, cativariam o marido mais do que haviam cativado o amante. No meio desses pensamentos que se atropelavam desordenadamente no seu cérebro,
a viúva foi interrompida por Sara, que entrando na sala foi direita a ela. Mãe e filha entreolharam-se, como adivinhando-se. Subitamente a moça, que era como fora o pai de uma franqueza arrojada, disse num tom sacudido e firme. Tenho que lhe dizer.
Ah? Deu-me ontem a entender que o Eugênio Ribas quer casar comigo? Sim, quer. Pois eu não quero. Ó, ele é um moço excelente, muito bem educado.
Seja o que for, não gosto dele. Minha filha, repara que ele faria a tua felicidade. Não, enfim mamãe, só lhe peço uma coisa. Ernestina ouvia a suspensa. Se ele vier pedir a minha mão, não me consulte.
Diga-lhe logo que eu amo outro. Amas outro? Sim. Quem é esse outro? Perguntou Ernestina com medo, com sua voz abafada, segurando-se ao braço da filha.
Luciano, é mentira! Exclamou Ernestina já de pé e com raiva. É mentira! Sara olhava com pasmo. A viúva deteve-se um minuto, depois puxou-a para si, beijou-lhe as tranças, as faces,
os olhos e murmurou quase numa súplica. Ah, diz-me que é mentira! Sara não respondeu. Olhava-a sempre com o mesmo olhar espantado e mudo. A mãe levou-a até o sofá, fez-la sentar-se, sentou-se ela também e segurando-lhe nas
mãos deixou-se resvalar até ficar quase de joelhos aos pés da filha. E foi assim, com os olhos empanados de lágrimas, que ela disse. Eu também o amo, Sara. Eu também o adoro. A moça teve um gesto de horror e de susto.
A mãe prosseguiu. Escuta, para ti ele é um amor que começa, um capricho de criança, talvez, que se apagar a depressa. Para mim ele é a vida, toda a minha mocidade. Eu era ainda mais nova do que tu e já o amava.
Abandona essa ideia. Tens um futuro tamanho. Amarás depois outro homem mais novo, mais belo, mais digno de ti. Eu é que estou no fim. Eu é que já não tenho esperança e que morrerei se ele me desprezar.
Sara, com o rosto voltado para fora, não respondia. Enestina suplicava-lhe. Olha para mim. Não imaginas o sacrifício que tenho feito para te esconder este amor. E ele é tão velho em meu coração.
Quando eu te gerei, quando te sentia nas minhas entranhas ou quando te suspendia no meu peito, ele já palpitava em mim com o mesmo fogo, com a mesma violência. Sara voltou os olhos para o retrato do pai e duas lágrimas grossas deslizaram-se-lhe devagar pelas faces. Surpreendendo a dolorosa piedade que aquele gesto exprimia, Enestina murmurou.
Respeitei sempre o teu pai e procurei por todos os modos fazê-lo feliz se o meu coração era de outro. A filha sufocou-lhe a frase, tapando-lhe a boca com a mão, fria e nervosa. Houve uma pausa. Ouvia-se a cansada respiração de ambas.
Sara retirou a mão com o movimento brusco. Enestina soluçou baixo. Diz-me que lhe fugirás. Sara não respondeu. E as de ser tu, minha filha, que me rouba aventura com que desde menina sonho.
Sara, eu sou uma louca. Ah, na minha idade as paixões são assim. Levam a estes desatinos. Como é cruel a velhice. Como tu és feliz, minha Sara.
Enestina, cobrando de beijos a mão gelada da filha, foi-lhe contando tudo. Baixo e precipitadamente. Revelou assim, numa doidice indiscreta, as promessas e exigências de Luciano, os seus conselhos e até os seus ditos ferinos contra a filha. Já exausta, Enestina deixou-se cair sentada na alcantifa.
Sara, então, levantou-se, atravessou a sala sem olhar para trás e saiu. A mãe ficou só, com o rosto sumido no estofo de um filthéu, soluçando alto, como uma doida. Fim da sessão 14. Gravado por Raquel Moraes.
- 15 - Capítulo 15
Sessão 15 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 15. Capítulo 15. Sarah encerrou-se no seu quarto. Sentia-se atordoada e opressa.
Esteve longo tempo à janela, com os olhos parados no azul acinzentado do mar. A pouco e pouco via esclarecidas muitas passagens de outrora. Frases irônicas e secas de Luciano, atitudes constrangidas da mãe e mesmo certos ditos levemente maliciosos da Georgina, que tinha sido, como sempre, muito mais perspicaz do que ela.
Isso tudo vinha a memória demoradamente, como se umas coisas arrastassem outras. Mas afinal, o que tangia com mais dor no seu coração eram aquelas ingentíssimas palavras da mãe, referindo-se à antiguidade do seu afeto. Quando eu te gerei, quando te sentia nas minhas entranhas
ou que te suspendia no meu seio, ele já palpitava em mim com o mesmo fogo, com a mesma violência. Eram essas expressões nervosas e apaixonadas que soavam mais repetidamente aos ouvidos da moça. Por que se teria casado a mãe?
Por que teria mentido aquele santo, que se não fosse a filha estaria completamente esquecido na terra? Envergonhava-se como se, por ter sido concebida sob influência desse amor, tivesse com participação no crime da mentira. Voltava tal adoração à memória do seu querido morto,
que, mais pequena ainda que tivesse sido a falta, lhe pareceria uma monstruosidade. Amar um homem e casar com outro era, aos seus olhos castos, uma ignomínia. Que mistério haveria em tudo aquilo?
Por que não se teriam eles declarado e unido se eram ambos livres? Começava a duvidar da honestidade da mãe. Queria a toda voltada para aquele que a amara, leal, exclusivamente. A confissão de Ernestina fura até a brutalidade.
Para que desvendar-lhe as queixas e antipatias de Luciano? Não precisava disso para compreender agora tudo? A retirada do luto antes do tempo? A história do retrato? O seu afastamento para Friburgo?
Os gestos e conversas com que procuravam livrar-se dela? Lamentava ter vazado a sua alma no coração de Luciano naquela terrível noite do baile. O seu amor transformara-se subitamente em ódio. Esse cravo a Luciano não compreendia mesmo como tivesse amado.
E amara-o talvez por tanto ouvir falar dele. A força de vê-lo na intimidade da casa, de respirar aquela atmosfera em que o nome dele, o gosto dele, a vida dele, parecia impregnar-se. Fora talvez por ter sido tratada por ele com pouca atenção.
Nascer esse amor do ressentimento morria na raiva. Sara começou depois a passear pelo quarto mordendo as mãos, sacudindo os ombros em movimentos fortes, sobressaltada, coberta de vergonha só com a ideia de que a Luciano adivinhar o seu primeiro amor. Que a vira chorar, que demorara nas suas pupilas internecidas,
os olhos pérfidos, que ele apertara as mãos como o adenamorado, sentindo-a dele, toda dele. Revia tudo. As vozes, as luzes, o mar, as flores, o seu nome suspirado por ele num enlevo,
aquele perfume, aqueles batimentos de coração, aquele despertar no amor que a comovera tanto. Enganada, enganada, pensava ela com asco de si mesma, como se tivesse sido um crime a sua credulidade.
A mãe tinha alimentido, tinha alimentido todos os que a rodeavam. Começava a odiar toda a gente. De repente, estacou. A visita do Rosas ocorreu-lhe como a lembrança da maior ignomínia de toda a sua vida. E a mãe que a tinha deixado chorar e sofrer tanto,
pensou logo que Ernestina já não a amasse. Cuidou mesmo que ela talvez desejasse a sua morte. O calor sufocava, sentia um novelo na garganta que lhe tapava o ar. Foi ao lavatório, encharcou a toalha de rosto na água do jarro e envolveu-se nela. Nisso, a Simplícia passou entre a janela cantando,
em um disfarce, para ver o que se passava lá dentro do quarto da moça. Sara retraiu-se, envergonhada, lembrando-se de frases da mulata, percebendo a sua curiosidade. Toda gente sabia do amor da viúva por Luciano. Só ela ignorava tudo.
Simplícia voltou, ondulando seu corpo de cobra em movimentos preguiçosos, cantarolando entre dentes. Era demais. Sara fechou violentamente as venezianas e começou agitadíssima a passear de um lado para o outro. Até as negras da casa queriam vigiá-la.
Suposso que tivesse sido aquilo mandado pela mãe. E rasgou-lhe o retrato no ímpeto, arrancando-o da sua cabeceira, onde ela sorria junto ao retrato do esposo. Depois atirou ao chão a fotografia despedaçada e voltou-se religiosamente para o retrato do pai.
Amava-o mais do que nunca. Beijou, disse-lhe baixinho tudo o que ia voando pela sua imaginação. Queria vingar-se e vingá-lo. Remira os beijos que a mãe lhe dera pensando no outro, fazê-los amargar aquele crime, aniquilá-los entre as suas mãos frágeis.
A vergonha de ter amado Luciano, de lhe ter demonstrado seu amor nascente, punha a vermelha, trêmula, excitada. Como podia isso ter sido, santo Deus? Agora chamava-lhe miserável. Cão, cão!
Tinha vontade de socorrer sem alguém e achava-se só no mundo. Completamente só. Sara pestanejava, sentindo nas pupilas secas, uma impressão dolorosa, como se estivesse polvilhado de areia quente. O sangue tingia-lhe todo o rosto de um rosado vivíssimo
e ela apertava com as mãos geladas as frontes palpitantes. A toalha resvalara-lhe dos ombros para o chão e, através do vestido molhado, via-se-lhe tremer a carne das costas em convulsões repetidas. O pai olhava-a com o mesmo olhar, mudo e frio.
A moça deitou-se abatida por uma vertigem que assossegou momentaneamente. Depois abriu os olhos para o teto nu. Voltou-lhe o conhecimento das coisas. As lágrimas não vieram, mas veio a febre. Fim da Seção 15, gravado por Raquel Moraes.
- 16 - Capítulo 16
Seção 16 de Aviuvas Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Aviuvas Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Seção 16. Capítulo 16. Eram 11 horas da noite. No quarto de Sarah havia um rumor baixo de vozes e um forte cheiro de mustarda com que
assinapizava um adoente. A lamparina espalhava uma claridade morna e discreta. No papel branco da parede, o cortinado da cama desenhava em sombras movediças as suas rosas, pâmpanos e fetos. Sarah estava ali deitada de costas no seu leito de virgem, com os olhos cerrados e móvel
como a imagem de um túmulo. A mãe mudava-lhe os sinapismos ajoelhada no chão, com as mãos sumidas embaixo dos lençóis, os olhos vermelhos maltratados pelo choro. O médico examinava com atenção o remédio acabado de chegar da butica. Dei-me uma luz, pediu ele impaciente, revirando entre os dedos magros o frasco do xarope.
A Ana chegou uma vela, fazendo com a mão anteparo para que a claridade não bateça no rosto da doente. Erraram a fórmula? Erraram como burros! Gritou o doutor, lendo com atenção o rótulo e mirando a cor opalizada do remédio.
Ernestina voltou-se. O médico abriu o frasco e lambia a ponta do dedo molhada no xarope. Peço o remédio e mandam-me veneno! Resmungou o médico zangado, pousando o vidro sobre a cômoda. E agora?
Perguntou-lhe Ernestina. Agora é preciso mandar buscar outro? Chamei o João! Gritou a viúva para dentro. O médico escreveu, exigindo que fossem à outra farmácia.
Eu não quero que a minha filha morra, gemiu Ernestina. Não morrerá? Descanse. Não me engana, doutor. Estas doenças cerebrais são graves, são gravíssimas, mas espero que havemos de triunfar.
Oh, o senhor não tem certeza. Sua filha tem um temperamento sanguíneo muito forte. Mas senhor, que determinaria isto? Era a vigésima vez que ele fazia aquela pergunta. Ernestina suspirou muito à pressa.
Daqui a uma hora dele uma colher de xarope. Depois só o calmante. A viúva acompanhou o médico até a porta, repetindo a pergunta. Há perigo, há muito perigo. Não posso dizer nada, por enquanto, respondeu o médico embaraçado.
Ernestina juntou as mãos à flita. Amanhã deve apresentar melhoras, murmurou ele, procurando consolá-la. Ele saiu. Ernestina voltou cambaleante para o quarto da filha. Aproximou-se do leito.
Sara tinha os olhos abertos, mas fixos, mudos. Meu amor, como estás? Sara não se moveu. Ernestina recuou, chorando, para um recanto mais sombrio do quarto. Havia já muitos dias que aquilo era assim.
Dias e noites passadas naquele canto, com as mãos nos joelhos e os olhos na filha. De vez em quando levantava-se. Sara gemia, ela ia arranjar-lhe a roupa, beijá-la, pedir-lhe perdão baixinho, com toda a humildade e ternura. Sem obter nenhum olhar em resposta, voltava para o seu canto, lúgubrimente. Rezava então de um modo desordenado e aflito, encolhendo-se na cadeira,
com verdadeiro pavor do retrato do marido, que continuava suspensa sobre a cabeceira da cama, e que parecia estar ali para proteger a filha e arguir terrivelmente a esposa. A viúva via incessantemente esta pergunta atroz nos olhos dele. Que fizeste de nossa filha? Sara balançava-se entre a vida e a morte.
A mãe não sabia de mais nada. Estava sempre ali, sem dormir, sem se despir, quase sem comer, com o rosto transformado. O cabelo em desalinho, os lábios a murmurarem pressas e promessas. Meu Deus, se salvaras minha filha, eu vestirei dez órfãos pobres e dar-lhe zeia e educação. Virgem Maria, se deres saúde a minha filha, eu irei descalça, como a mais humilde pobre das criaturas,
angariar as molas para os velhinhos fracos e aleijados. Ao médico ela suplicava de joelhos que ele salvasse a filha, prometendo-lhe fortunas e coisas impossíveis. Quando a noite chegava, era horrível. Via-se sozinha. A filha parecia-lhe às vezes moribunda, outras vezes morta.
Então tinha medo de se chegar à cama. Arrastava-se de joelhos e rezava o retrato do marido como rezaria uma imagem sagrada. Ela era culpada de tudo. O remorso juntava-se à dor. Agora a sua felicidade seria ver Sara feliz.
O seu amor era um crime. Pedia perdão a Deus, prometendo-lhe altares de ouro, se ele salvasse Sara. Naquela noite, Ernestina estava mais agitada do que nunca. O cansaço físico juntava-se à fadiga e à tortura moral. Ela revoltava-se contra o corpo, sentindo por vezes vacilar-lhe a vista e a razão.
No silêncio profundo da noite, a badalada da uma hora soou como um grande suspiro de agonia. Ernestina levantou-se e foi direita à cômoda. O médico tinha recomendado vigilância e extrema pontualidade nas horas do remédio. Ela tomou o vidro, por onde o remédio coava uma boa cor opalina, e aproximou-se do leito. Sara tinha os olhos abertos, mas como se não vissem.
A mãe agitou-a. Ela moveu a cabeça com gemido. Ernestina chegou-lhe a colher à boca. A moça cerrou apertadamente os lábios. Foi então uma luta, até que a mãe forçou-a, batendo-lhe com a colher nos dentes, a tomar o remédio.
Chegava a ser brutal, mas queria a todo custo a salvação da filha. Sara não pôde engolir o xarope, gorgolejou-lhe na boca e saiu espumante escorrendo-lhe pelo queixo. Desesperada, Ernestina deu-lhe outra colher e tampou-lhe depois rapidamente a boca com a mão espalmada. A doente engoliu com ruído e ficou-se, como dantes, imóvel. A viúva beijou-a devagar, como a pedir perdão por aquela violência, e levantou-se, mas ao voltar se estremeceu.
Sobre a mesa da cabeceira estava o outro vidro de xarope. De repente lembrou-se de tudo e viu seu erro. Enganara-se nos remédios. Comparou os dois frascos. Eram iguais no tamanho, eram quase iguais na cor.
Mas num estaria talvez a salvação. No outro estava com certeza a morte. E fora a morte que ela levar a sua amada, a sua idolatrada filha. Ernestina correu para fora gritando pelos criados. Tornou depois a entrar no quarto e pareceu-lhe que as pupilas de Sarah se tinham dilatado muito
e que na sua pele branca e pálida, desabrochavam manchas violáceas. Tornou a sair e foi bater com ambas as mãos na porta do quarto das criadas, que já se vestiam estramunhadas e aflitas. Quis tornar para o lado de Sarah. Não teve coragem e atirou-se para o jardim.
A casa d'ortelão era ao fundo, meio encoberta pelos pés de murta ao lado da horta. Ernestina correu para lá pisando nos canteiros, colérgica contra os espinhos das roseiras que a obrigavam a parar, prendendo-lhe o vestido que ela estraçalhava. O João acordou assustado, ouvindo a voz da patroa que lhe ordenava de chamar o médico, muito depressa.
Ele respondeu que sim, com a voz empastada, cheia de sono. Chame também um padre, minha filha morre. Ernestina voltou para dentro mais uma vez. Seguiu pelo corredor com as mãos no ar, o peito afante. Esbarrou na porta do quarto de Sarah, sem forças para entrar, com medo da morte.
Esteve algum tempo inerte, encostado num umbral, repetindo baixo num tremor nervoso. Matei minha filha, matei minha filha, matei minha filha. Espreitou de longe, por fim. Criadas rodeavam a cama de Sarah. Lembrou-se de repente de ir buscar Luciano.
Sarah amava-o, só ele a poderia salvar. Seria o amor o Cristo que ressuscitasse aquele corpês ânime e que fizesse ergueirem-se na miraculosa paz das almas satisfeitas, aquelas pálpebras imóveis e aquela palha da cabeça de moribunda. Só o amor teria o poder mágico de acordar aquela carne
que nem os seus beijos nem as suas lágrimas faziam estremecer. Ernestina saiu para a rua e correu pelo morro abaixo um atordoamento. Ia buscar Luciano, o seu amado, o seu sonhado esposo e dizer-lhe confesso o seu amor a minha filha e salve-a. O caminho estava negro, a viúva sentiu o vestido embaralhar-se debaixo dos pés,
tropeçava miúdo, caiu uma vez, ergueu-se e foi seguindo. Não levava nem chapéu nem chale e o vestido leve e caseiro mal a resguardava da chuva que principiava cair. Uma patrulha cortou-lhe o caminho. Ela disse-lhe entre soluços. Vou buscar Luciano, minha filha morre.
E com tal dor disse aquilo que a polícia deixou a passar através da noite sozinha na sua angústia. A chuva caía do céu enegrecido, as casas estavam fechadas e mudas, as ruas solitárias, os lampiões de gás pareciam tochas fúnebres acesas de longe em longe e os passos da viúva Simões
soavam no meio daquilo tudo de uma maneira irregular, nervosa, triste. Chegou quase morta à rua do rio Achuelo, encostou-se a parede de um prédio, tateou a campainha elétrica e vibrou-a sem interrupção até que ele abriram a porta. Era a casa de Luciano. O criado reconheceu-a logo e não pôde conter um murmúrio de espanto.
A senhora aqui a estas horas? Balbuciou ele. Ernestino não respondeu, galgou os degraus e seguiu esbarrando nos móveis e nas paredes até perto do quarto de Luciano, para onde gritou com toda sua alma num último esforço. Luciano, Luciano, matei minha filha, salve minha filha. Ernestina não pôde suster-se por mais tempo em pé.
A vista escureceu-se-lhe, os joelhos vergaram-se-lhe e ela caiu desmaiada. Quando Luciano entrou na sala, ela ainda estava estendida no chão. O criado iluminava a cena com os olhos espantados. Vendo amo, perguntou indeciso. Ela diz que matou a filha? Que era o senhor que vai avisar a polícia?
Que era o que vai chamar um carro, ô burro, pois não vejo que ela morre? Luciano tinha chegado nesse dia da viagem a Minas, arranjada como pretexto para adiar as explicações com Eugênio Ribas. Nada sabia acerca de Sarah. Temia a escrever a Ernestina em quem pensava, quando longe,
como numa doce amiga de infância, e quando perto, no alvoroço dos sentidos, como na mais desejável das amantes. Aquela mulher era um enigma, desde os tempos antigos, da sua primeira paixão, que ele lhe fugira por medo. A beleza de Ernestina era então de uma singularidade atormentadora.
Vira sempre nela a tentação da carne, chamando-a, por isso, de virgem inconscientemente pecaminosa. Nunca lhe ocorreria dar-lhe uma flor. Se pensava em presenteá-la, vinha a lhe a ideia pedrarias caras, engastadas em metais rígidos e vistosos.
A não ser como amante, lasciva e ardente, ele só podia conceber Ernestina casar-se com um príncipe poderoso, ou um desses homens fantásticos das lendas, que a vestisse de roupas suntuosíssimas, e a fizesse servir em baixela de ouro.
Era mulher destinada, pela sua formosura emocionadora, ao luxo, à grandeza e ao amor. Não que o seu rosto fosse de linhas puras, nem que suas palavras denunciasse a volúpia. Aquele ardor, aquele domínio, vinham da sua pele,
do seu olhar, do seu porte e do seu sorriso. Decorreram anos depois de tudo isso. Agora ele sabia a boa e honesta, a sua vida de casada fora doce, invejável, simples, reta. Ainda assim, era sempre a mesma impressão esquisita,
meramente sensual, que essa mulher produzia nele. Lamentava-se disso agora, que pela convivência conhecia as maneiras e ideias severas de Ernestina, sempre tão correta e tão fria. Aquela cena em casa da ama Josefa,
encheram-o de assombro e de piedade. Calculava o sacrifício que teria custado a viúva, o seu coquetismo quase canalha. Ela ia, estava agora, a seus pés, com o vestido sujo de lama, o cabelo solto, os olhos dentro de um círculo negro.
Luciano, atônito, curvou-se para vê-la bem de perto. O criado repetiu. O senhor fará o que entender, mas eu sempre achava bom avisar a polícia. Um carro, já disse, gritou Luciano com raiva,
e enquanto o outro saía a procurar um carro, ele fixava com susto a fisionomia da viúva. O que se teria passado? As hipóteses voavam-lhe doidamente pelo espírito. Suspendeu a viúva, pola no sofá,
ajeitando-lhe a cabeça numa almofada. Jogava a vítima de uma febre. Era delírio tudo aquilo. A sua vinda e aquelas palavras horríveis que eu tinha despertado de um modo tão cruel.
Matei minha filha, matei minha filha. Luciano vestiu um robo de chambre ao conhecer a voz de Ernestina, apressando-se em vê-la. Agora fazia rapidamente a sua toalete,
com o ouvido à escuta e o coração aos saltos. Sara, Sara, meu Deus, que haveria de verdade em tudo isso? A ser delírio, não teriam deixado o doente sair aquela hora, sozinha? Loucura? Quem sabe? Mas como?
Por que teria enlouquecido Ernestina? E no fundo do seu espírito, debatia-se o medo. De que realmente a viúva tivesse estrangulado a filha em um momento de ciúme. Ao mesmo tempo, a razão lembrava-lhe o amor daquela mãe,
para quem a filha era o símbolo da perfeição na terra, o inexaurível manancial de todos os bens. Impressionado e perplexo, ele procurava às vezes interrogar a viúva, mas curvava-se para ela sem ânimo de a despertar,
abandonando-a naquela vertigem que a imobilizara completamente. A chuva tinha engrossado, e batia agora com força nos vidros da janela. Luciano ia e vinha do quarto para a sala, esperando a todos os momentos o carro,
ansioso por sair e saber a verdade. Mas o carro tardava. E acabado a sua toalete, ele iluminou a sala e sentou-se em frente da viúva Simões. Que diferença!
Ela parecia-lhe muito mais morena, os cabelos caídos para os ombros, davam-lhe um aspecto de louca, e a sua boca, deliciosamente pequenina e vermelha, estava então desbotada,
entreaberta numa expressão de agonia. Luciano, não tendo em casa éter, recorreu às essências, mas vacilava-se deveria ou não chamar a viúva a realidade da vida. Julgou mais acertado levá-la assim, receiando que ele sobreviesse uma crise violenta.
Pobre mulher! Pensava Luciano com infinita tristeza. E sentiu uma dor incompreensível, que seria talvez o remorso. Imaginando que no fundo,
a causa de tudo aquilo era ele. Fim da sessão 16, gravado por Raquel Moraes.
- 17 - Capítulo 17
Seção 17 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes.
Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Seção 17. Capítulo 17. As criadas tinham despertado aos gritos de Ernestina, mas quando saíram do quarto, já não a encontraram. Foram todas rodear o leito de Sarah, espavoridas, sem atinar com o que fizessem.
A cozinheira tomou por fim o expediente de mandar o jardineiro chamar o Padrancelmo. A moça estava nas últimas, afirmava ela. Saiu para isso e encontrou o hortelão já na porta, acabando de enfiar já as mangas da jaqueta. Seu João e a Sarah está morrendo, vai chamar o padre. A patroa já me disse.
A Benedita voltou chorosa para o lado da doente. O seu coração sentiu uma mágoa imensa por ver assim a sua simha moça, que tantas vezes trouxerá o colo quando pequenina. O hortelão caminhava apressado sob a chuva miúda que vinha caindo como uma nuvem ligeira na montanha. Se a menina morre, dizia ele consigo mesmo, eu saio da casa. Sarah era adorada pelos servos.
Não tendo de ordenar coisa alguma, ela não se mostrava severa e intervia muitas vezes nas angas da mãe, procurando desculpá-los. Às vezes mesmo a moça ia ajudá-lo de manhã cedo na cultura do jardim. Era trêfega, alegre e robusta. Gostava daqueles exercícios ao sol. Tinha os seus instrumentos e os seus canteiros, onde não consentia que outras pessoas bolissem.
E depois que risadas, que alegres cantorias. Era extraordinária. Nem ele nunca vira moça rica e de cidade ter tanto humor. E pensava, ah, e as belas manhãs, se elas não voltam mais, pobre menina. Depois de ter batido a porta do médico, o jardineiro apressou-se a ir chamar o sacerdote. O padrançal morava mais longe, numa casa rodeada de cães e de roseiras bravas.
Mas nem os espinhos das flores, nem o latido dos cães, dissuadiam os crentes de o ir chamar a dez horas. Sabiam todos que o padrançal não se negava a ninguém. Rico ou pobre, o que lhe importava? Era uma alma a salvar. E ele ia sempre. A chuva tinha apertado. Os dois homens caminhavam depressa. Os seus vultos manchavam ainda de mais negro a escuridão da noite.
Que nenhuma bulha de vida perturbava. Somente ao longe, a água do aqueduto remorejavam soluços surdos que o jardineiro maldizia, trazendo-lhe à mente o estertor de um moribundo. O seu pavor por vezes era tamanho que ele, o trabalhador da terra, forte e rude, tinha ímpeto de se agarrar à batina e ao manto negro flutuante do padre.
Está aí o carro, disse o criado Aluciano. E quis logo narrar a grande dificuldade que ele tiver para obter uma calheça aquela hora. Mas o amo, sem lhe dar atenção, ordenou-lhe que o ajudasse a transportar a doente. Ernestina ia desacordada. Ele sentia anos-braços como morta. O cocheiro, receiando talvez ser cúmplice involuntário num crime,
veio antes de subir para a boléia examinar de perto a moça. E foi depois para o seu posto, resmungando baixo. Seguiram. A chuva diminuiu pouco a pouco. Poder-se iam por fim contar as gotas que soavam como pancadas dadas compassadamente com as pontas dos dedos na coberta do carro. Ernestina continuava insensível a tudo. Ia com a cabeça deitada no peito de Luciano,
os pés pousados no banco fronteiro. Ele amparava-a com desvelo, levando através da noite uma culada e só a sua desejada amante. De vez em quando, ao passarem por algum lampião de gás, a luz vinha amarelada e frouxa iluminar a cabeça desfalecida da viúva. Luciano contemplava-a atônito. Parecia-lhe incrível que se envelhecesse tão depressa.
Havia menos de um mês que não via Ernestina. Deixara fresca, louçã, tentadora. Via encontrá-la amolecida, pálida, cheia de cabelos brancos. Uma grande piedade substituía agora o seu amor impetuoso e antigo. Um filho não teria carinho mais doce nem mais respeitoso para sua mãe. Quando chegaram ao portão do jardim, Ernestina voltara a ser.
O cocheiro desceu da boleia e abriu a portinhola, sacudindo barulhentamente a água que se lia escorrer do capote de borracha. A noite estava ainda trevosa. Dentro, através das grades, vinham-se as janelas do chalé, cujos vidros molhados coavam uma luz pálida e triste. Luciana ajudou Ernestina a apear-se. O carro voltou enterrando as rodas na lama, como a bolha surda. A viúva Simões mal se podia arrastar e a travessia do jardim foi vagarosa.
Em torno deles, as flores, abafadas pela chuva, tinham um aroma discreto e vago. Uma ou outra gota de chuva retida nas folhas e despenhada agora das árvores, caia como uma lágrima fria da cabeça nua de Ernestina. Ela já não podia mover as pernas. Um grande peso paralisava-lhe as forças. A voz sumira-se-lhe também, e de tal jeito que só pôde acenar com a mão a Luciano que fosse depressa e que a deixasse ali. Luciano tremia, estava perplexo, apreensivo. As suas
suposições haviam se dissipado logo que, ao chegar ao portão da chácara, não vira Sara, que esperava correr para mãe doente. O silêncio daquela casa iluminada encheu-o de pavor e sentia instintivamente repulsão por aquela mulher que ia conduzindo com tanta solicitude. Sentia ainda ferir-lhe os ouvidos o seu grito terrível. Luciano, Luciano, matei minha filha, salve minha filha. Nesse instante, manchando o corredor com a sua ampla batina negra, ele viu o Padre Anselmo dirigir-se
ao quarto de Sara. Ao mesmo tempo, rompeu lá de dentro um soluço que ondulou dolorosamente pelo ar silencioso da noite, ficando-se-lhe no coração como uma dor atrocíssima. Então é verdade? gritou Luciano, sacudindo Ernestina. É, disse ela por entre os dentes cerrados com um olhar de susto. Num grande desvairamento, Luciano galgou de um pulo os degraus do terraço, deixando a viúva fora, sozinha. Outro soluço, mais brando e doloroso,
voou pela noite negra. Ernestina deu alguns passos, cambaleante, até que já sem forças caiu de joelhos, erguendo as mãos unidas para o céu impiedoso. Ela também tinha reconhecido o Padre. Aquela batina preta passando rápido de uma porta a outra porta, como que ele dissera alto e de longe. Acabou-se. Ernestina já não rezava, nem o seu espírito sabia formular, nem os seus lábios articular palavras. Encolhida de joelhos na areia molhada, ela afundava o olhar pelo corredor, agarrando-se às grades do
terraço e empapando a cabeça nas trepadeiras alagadas. Subtamente uma voz desconhecida disse alto, lá de dentro. Muito depressa. E ela viu o jardineiro vir correndo pelo corredor e sair. O que seria? Teve o que se dava de segurar em ambas as mãos, de lhe perguntar se a sua filha dourada era viva ou morta, mas não pôde mover-se. E ele, como a não visse, passou. Ernestina então deixou-se cair sentada, com as mãos espalmadas no chão e o pescoço dobrado sobre a espinha. A chuva recomeçava
os pés grossos que ele caiam nos olhos abertos, na boca, no queixo. Hora um, hora outro, hora doze a um tempo. Queria ver a filha, beijá-la, suplicar-lhe que vivesse, que vivesse, que vivesse, mas eram inúteis dos seus tremendos esforços para levantar-se, subir os degraus e ir ao quarto de Sarah. Sentia-se presa de Sarah. Já não era uma mulher, mas como uma planta, nascida para o sofrimento e, por isso mesmo, valentemente enraizada no chão. Quando Luciano entrou no quarto de Sarah, viu o padrancielmo de pé,
junto do leito, com uma das mãos estendidas sobre a cabeça da moça, numa atitude de bênção. A fronte do velho erguida, os olhos úmidos e levantados, os lábios movendo-se numa oração compenetrada, baixa e fervorosa, tinham uma doçura solene, em que a piedade humana se misturava com a austeridade religiosa. O homem nele sofreu uma revolta contra a natureza, por ver morrer uma mulher tão jovem. O padre, porém, congratulava-se com o céu, que ia receber no seu seio límpido uma virgem pura. Luciano
ficou preso àquele leito numa mudez gelada, olhos fixos em Sarah, por quem sentia agora recrudescer o amor. Amava-a assim e com intensidade. As lágrimas rebentavam-ne dos olhos celeremente. Benedita soluçava alto de vez em quando e aqueles soluços revolviu-lhe na alma toda a sua ternura. Atrás dele o médico escrevia, mas no seu desespero Luciano nem reparava nele. Todo o seu sentido estava nessa uma estreita, branca, revolta, onde, como uma estátua pesada e rígida, Sarah parecia dormir.
Morta não estava. Ele via-lhe o peito abaixar-se e erguer-se numa respiração custosa, como se aquele resto de vida lhe pesasse sobre o coração. A doente tinha as feições alteradas, o rosto lívido manchado e o rosto duro, os lábios entumecidos e as pálpebras rústias. Luciano quis beijá-la na testa. O padrão Selmo desviou-o com austeridade. A pena do médico rangia no papel e as criadas, agrupadas aos pés da cama, esperavam as ordens, olhando com tristeza para a moça. Benedita chorava sempre, alto. E o
médico, compadecido, disse-lhe com voz doce e triste. Espere, ela talvez não morra. A misericórdia de Deus é infinita. O médico postou-se novamente a cabeceira da doente. Luciano, vendo-o, contou-lhe o que eu vi da diernistina, baixo e precipitadamente. O que seria aquilo? Um envenenamento? Não. Houve um envenenamento de remédio, nada mais. Percebi logo que entrei do que se tratava, vendo a cabeceira da doente, o frasco que eu já tinha posto de parte por terem errado a fórmula. Mas não era coisa de matar.
Mormente em dose pequena, não foi isso que determinou o acesso. Mas há diferença? Nenhuma. Luciano estremeceu e um suor frio nundou-lhe a testa. Isto é, acudiu o médico. Quem sabe? Não será a primeira que eu veja ressuscitar. Estas doenças de cabeça são terríveis. Ah, ela foi atacada? De uma febre cerebral? Meu Deus. Às vezes é melhor morrer, concluiu o médico, abaixando-se para examinar o rosto de Sarah. O médico empregava a atividade de toda a gente da casa. As criadas iam e vinham, aquecendo
água, transportando roupas, luzes, receitas, acudindo sem cansaço a todos os chamados, com boa qualidade e ligeireza. Entretanto, o Padrão Selmo perguntava por Ernestina. Até aí, tanto ele como o médico tinham na julgada o recolhida, propositalmente afastada da filha, e poupavam-lhe a agonia de a ver morrer. Agora, porém, o caso era outro, desde que Luciano narrara a ida da viúva a sua casa. Mas então, onde está ela? Perguntava o padre. Ninguém sabia responder. Percorreram a casa inútilmente.
Veio comigo, afirmava Luciano. Entramos juntos? Mas Luciano não se arredava do leito de Sarah, não se lembrava de mais nada e repetia maquinalmente aquilo. Veio comigo, entramos juntos. Sem interesse, sem preocupação, entregue a sua surpresa, com os olhos fitos em Sarah, esperando a morte. O padre aparecia. Vinha e olhei a ideia, os despenhadeiros do morro, onde Ernestina fosse talvez pedir o esquecimento da dor que apungia. Chamou então o jardineiro e saíram ambos. As sombras da noite iam
se dissipando. A dois passos da porta, o padre distinguiu alguém deitado sobre a grama. Aproximou-se abaixando-se, apalpou Ernestina. Ajude-me a levá-la para dentro, disse ele ao jovem jovem e a viúva, que estava alagada e fria. Pobre mãe, repetiu bom velho comovido. Dentro, recomendou as criadas que lhe mudassem roupa e friccionassem o corpo. Feito isso, ele entrou no quarto e sentou-se ao pé do leito. Ernestina abriu os olhos e de repente, espavorida com a
da filha, perguntou. Morreu. Não morrerá, tenho esperança, respondeu-lhe o padre. No entorpecimento da sua terrível dor, Ernestina não pareceu alegrar-se. Deixou-se cair sobre os travesseiros e adormeceu profundamente. Fim da sessão 17, gravado por Raquel Moraes.
- 18 - Capítulo 18
Sessão 18 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes. Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida.
Sessão 18. Capítulo 18. Quando a Ernestina acordou era dia. Quis mover-se, não pôde. A cabeça ardia-lhe.
Muito pesada e dourida. Tinha o rosto vermelho e uma dor no peito que não a deixava respirar. O médico foi vê-la, assegurou-lhe que Sara não morreria, consolando-a muito. Ela quis contar a história toda, como confundir os remédios e o seu desatino depois. Ele fila calar-se.
Perceber a verdade vendo os dois frascos juntos e abertos. Providenciaram a tempo. Tudo ia bem. Entretanto, numa ocasião, ela teve medo que a enganassem e saltou da cama descalça com a camisa aberta no peito e os cabelos soltos. Atravessou a sala sem que a visse, passou pelo corredor onde circulava livremente o ar e abriu de mansinho a porta do quarto de Sara.
Com medo terrível de ir encontrar vazio. Mas não. Sara dormia numa atitude serena e a seus pés, de costas para a porta, estava Luciano. Ernestina voltou para o seu quarto sem desgosto, sem alegria, impassível, como se tudo aquilo fosse esperado. Sentou-se na cama com os pés nus sobre o tapete, as mãos caídas nos joelhos e assim ficou algum tempo,
com os olhos fixos no reposteiro da porta, sem pestanejar, imóvel, abstrata. A pouco e pouco a respiração foi se tornando mais difícil e o corpo, vencido, caiu pesadamente sobre os travesseiros. Recrudeceram-lhe as dores e a febre. Pelas faces muito vermelhas, rolavam lágrimas grossas e ardentes. E ela mal podia respirar, sentindo uma pontada violenta no peito.
Luciano entrava a medo no quarto da viúva, esperando sempre uma recriminação, temendo também exacerbar-lhe o mal. A sua consciência não o deixava à vontade entre aquelas duas mulheres enfermas. Entretanto, não se afastava dali, daquela casa. Sara não tinha percebido ainda. A viúva não falava a ninguém.
Como o médico exigisse enfermeiras, ele julgou dever avisar a mulher do Nunes e a ama Josefa. Georgina passava também agora os dias e as noites no quarto da amiga. Desenvolver uma atividade de que ninguém ia julgar a capaz. Era enérgica, movia sem cansaço seu corpo franzino. Com as mãos ágeis, os passos leves, o ouvido atento e o seu belo olhar de gazela tão vivo e tão meigo,
assondara a doente, buscando uma esperança que não aparecia. Ah, ela compreendeu a verdade sem ouvir explicações. O amor de Ernestina por Luciano não fora nunca um segredo para ela. A sua perspicácia adivinharam logo, percebendo mais tarde que, por sua vez, Sara o adorava. Esperou com curiosidade e medo o desfecho daquela história.
Ele aí estava, e bem triste. A dona Candinha Nunes mudou-se também para a Santa Tereza e era quem determinava tudo. Assídua, solícita e animada. Entrava pouco nos quartos das doentes, mas preparava-lhes lá dentro os caldos, o leite, o gelo, as roupas e ordenava o silêncio entre as criadas, que é um gesto seu, suspendiam o mínimo rumor.
A cabeceira da viúva Simões estava a Josefa, sentada em um banquinho, com as mãos descansadas no colo e o queixo erguido para a cama. De vez em quando coxilava e então o queixo quadrado e forte batia-lhe no peito ossudo. Ela despertava com vexame, olhando em roda, observando se a tinham visto, receiosa de um olhar de censura. Mas nada.
A viúva tinha os olhos fechados opostos no teto, as mãos sumidas nas dobras do linho, os lábios silenciosos. Pelas janelas cerradas o sol entrava em fisgas. A não ser o tic-tac do relógio, só se ouvia o voar das moscas na sua bulha quase imperceptível e vaga. Josefa, para justificar a sua estada ali, erguia-se de vez em quando, alisava a lençol da doente e perguntava-lhe que era alguma coisa?
A viúva respondia com o gesto de não. A maior parte das vezes nem a si mesmo respondia, quedava-se imóvel. E a Josefa tornava para o banquinho com suspiro de cansaço e o corpo moído daquela indolência. E as horas iam passando. O sobra andava a sua luz amarela, recolhia pouco a pouco as fitas de ouro, que estenderam através das venezianas cerradas.
Caía tarde e o silêncio continuava. Triste e profundo. Dona Candinha ia de hora em hora dar o remédio, recomendando sempre a Josefa que avisasse se houvesse alguma falta. Às vezes, de longe em longe, a pobre mulher pedia à moça que ficasse ali um minuto. Ela voltaria depressa.
Saía e logo fora da porta respirava com força, sacudia as saias e andava com passos largos desentorpecendo-se. Ia ao quintal girar um pouco, colhia um raminho de manjerona ou de hortelã e entrava na cozinha mastigando as folhas e pedindo um caldo. Tomava o alimento à pressa, lamentando não poder saboreá-lo. Em verdade, o que ela saboreava mais não era a sopa, era a liberdade. Era a janela francamente aberta, a variedade das caras e a variedade das coisas.
A ausência do quarto da doente, com seu cheiro enjoativo de remédios, cortinas descidas e o relógio estúpido a dizer sobre a cômoda sempre o mesmo. Mas outras vizinhas vieram boas, cuidadosas e apesar de tudo a Josefa, como um cão de guarda, passava os dias sentada no banquinho, olhando para viúva, cansada, triste, esperando pelas horas da refeição para ergozar lá fora, sob esse pretexto, o ar, a luz e a palestra. Tomara já que isso acabe, pensava ela, que iaia, fique boa e sarinha também. Ave Maria, como estarão os meus cacos em São Cristóvão. A visão da casa a atormentava a muito. Via as baratas passeando sobre os pratos da marmelada feitas para quitanda na manhã da subida para Santa Teresa.
Lembrava-se de ter deixado fora do quarto, pendurado, à toa, o seu melhor vestido. E parecia-lhe sentir o ruído dos dentinhos dos ratos nas roupas dos fregueses. Credo. Calculava os prejuízos, somava pelos dedos o que teria que pagar a um e a outro. E pasmava diante das cifras que se desenhavam em seu espírito em proporções enormes. Uma noite a Josefa teve um sonho, que a decidiu a abandonar a doente por algum tempo.
Sonhou que o seu adorado São Sebastião, furioso por ver a pagada lamparina, com que ela, cuidadosa, religiosamente, o iluminava no seu oratório dia e noite, entraram a desfechar-lhe nos olhos todas as setas do seu bendito corpo. Perdão, gemia pobre, mas o santo não lhe perdoava. Quando Josefa acordou, sentiu dor nos olhos. Aquilo tornou-a apreensiva.
Foi ao espelho. Os olhos estavam vermelhos. Ué, gente, isso é aviso do céu. Eu vou logo ao São Cristóvão. Ao meio-dia vestiu seu vestido de merino preto, pôs o seu velho tocado de vidrilhos e flores roxas e dispôs-se a sair. Estava toda a casa silenciosa. A viúva dormia e a mãe de Georgina fazia ali quarto.
Josefa atravessou a sala de jantar em bico de pés e entrou no corredor. Ao fundo, a porta do jardim atraía-a, muito aberta, como um quadro de luz. E ela seguia com passos miúdos, segurando na mão a bolsinha de couro que não deixava nunca. Quando de repente um grito agudo feriu o ar e o silêncio da casa. Josefa estacou. Deus do céu, o que teria sido? Houve uma pausa, correram minutos?
Outro grito igual e estrídulo partiu do quarto de Sara. Josefa voltou depressa para o quarto da moça. Que foi? Georgina levantou para ela os olhos chorosos. Dona Candinha, mais calma, respondeu-lhe sem olhar para ela, fixando a doente. Foi a morte, Josefa. Sara está perdida.
Josefa caiu de joelhos e pôs as mãos. Georgina imitou-a, sem saber como, e ambas rezaram silenciosas, chorando. Ambas rezaram, ambas fizeram promessas e quando se levantaram, abraçaram-se, sem saber como, sem saber por quê.
- 19 - Capítulo 19
Sessão 19 de Avilva Simões. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser voluntário, por favor visite LibriVox.org. Gravado por Raquel Moraes. Avilva Simões, de Júlia Lopes de Almeida. Sessão 19. Capítulo 19. Tomaram-se precauções para que os gritos de Sarah não chegassem ao quarto da mãe. Entretanto, Avilva Simões ouviu-os e perguntou por eles uma vez. São as crianças do vizinho? Respondeu-lhe
Dona Candinha, trocando depois um olhar de inteligência com a Josefa, que se agachara no seu posto com o queixo erguido para a cama. A pobre mulher desistira daí da casa. Baratas e que andassem por lá à vontade. Já não temia coisa alguma. Olhe que você ainda está de chapéu, avisou Dona Candinha. Josefa levou as mãos grossas à altura das flores roxas do tocado. Vê? Por isso é que eu tenho dor de cabeça, murmurou ela. Mudada de vestido,
estava agora de chita, com uma saia e um casaco da cozinheira. O tocado dava liares de macaco desconfiado, ainda não acertado ao ritmo do realejo. Para descansar, disse Dona Candinha. Não, fico. E agora já não tenho sono, já não tenho nada. E os seus olhinhos castanhos encheram-se de lágrimas. Entretanto, no quarto de Sarah, Luciano e Georgina conversavam acerca da doente. Tem reparado numa coisa? Perguntou ele. Em que? Nos raros momentos em que Sarah parecia melhorar,
mostrava-se aflita com a minha presença. É verdade. Notou também isso? Notei. Joguei que pudesse ser uma ilusão minha. Não foi? Sarah quando o viu e o reconheceu, teve um grande abalo. Tornou-se roxa. Não viu como ela fechou apertadamente os olhos? Vi. Por que me odiará ela? Ainda o senhor pergunta. Georgina gravava os remorsos de Luciano vingando a amiga. Outras vezes falavam-se como irmãos, elogiando Sarah, recordando em comum os seus gestos e os seus ditos, como se tratassem de uma
morta. O arrependimento de Luciano crescia à vista da doente. Já nada esperava. Não podia. A força de amor, resgatar culpas antigas. Todas as noites saia daquela casa pensando em não voltar. O que ia fazer ali entre duas mulheres vítimas do seu capricho de homem gasto pelos prazeres e pelas dores da vida? Ele não era mal afinal? Como se tinha deixado levar tão levanamente em tudo aquilo? Jugaram talvez todas as mulheres iguais. Habituaram-se a vida frívola, longe da família,
do meio de que se afastaram para correr boemiamente, alegremente dos salões fáceis para os cafés e para os teatros, sem afeições sérias, sem preocupações, sem trabalho, gastando as forças e adquirindo vícios. Depois toda aquela história tinha começado como uma simples flirtation, leve e risonha. Este desenlace agora enchia-o de pavor e procurava salvar a sua consciência sem encontrar auxílio. Outras vezes exagerava as suas faltas, revolvendo ideias, penitenciando o seu espírito decaído.
Os médicos faziam repetidas visitas ao dia, as enfermeiras eram incansáveis e o tempo ia cada vez mais azul e formoso. Luciano subia todas as tardes, ficava até meia-noite e descia atormentado, sozinho, dizendo consigo que estava tudo acabado, bem acabado. Entretanto a viúva melhorava e teimava por sair da cama, queria ver a filha, pressentia alguma coisa, dizia às vezes que a enganavam, Sara estava morta. Outras cismava com aquele rumor estranho que se fazia em toda casa e em que o nome
de Sara parecia sussurrado continuamente. Médicos e enfermeiros prolongaram aquele estado, negando-lhe autorização para erguer-se. Os gritos de Sara tinham cessado, a casa voltaram a anterior silêncio. Uma vez a viúva viu, através das pálpebras, no levíssimo sono dos convalescentes, entrada na candinha e dirigir-se a Josefa, que lá estava a cochilar no seu canto. A moça curvou-se para a velha e entre ambas Ernestina distinguiu no ar sutilmente estas palavras.
Sara, que me diz, senhora? Saíram ambas cautelosamente. A viúva sentou-se de um salto e prestou o ouvido. Pareceu-lhe sentir um choro abafado, afastou desvairadamente as roupas da cama e ergueu-se do leito, sempre escutando, trêmula com os cabelos desgrenhados sobre os ombros magos e as pernas desenhadas no linho da camisola. Entreabriu assim a porta e esgueirou-se a medo para o corredor. Lá fora, na atmosfera suavemente morna, vagava o aroma das flores de laranjeira. Ernestina teve
uma vertigem. A luz cegou-a, o aroma entonteceu-a, encostou-se ao umbral. Não passava ninguém, a casa parecia deserta. A viúva recobrou a lento e atravessou o corredor, descalça, com os artilhos nus, pensando em ir encontrar a filha amortalhada no setim branco das esponçais, com a grenalda de virgem e o velcastíssimo, esparço em ondas sobre as suas opulentas tranças loiras. Foi desse modo, sem ser percebida, até ao quarto de vestir da filha e, sempre muda e atenta, aproximou-se da alcova.
Dali não podia ver Sarah, encoberta pelas costas e o cortinado do leito. Tinha ainda medo, medo de entrar naquele quarto, medo de se aproximar da filha. Junto à mesa, de que só havia um ângulo, estava sentado um homem. Divisava-lhe a orla das calças cinzentas e os pés que se moviam nervosamente. Georgina olhava para fora, com o rosto unido aos vidros. O seu corpo de menina fino e chato, ondulava com o esforço da respiração e os cotovelos pontudos, erguidos à altura das orelhas,
que as mãos cruzadas sobre a nuca encobriam, faziam cismar no desejo das asas. Asas que se batessem pelo azul fora, levando aquele coração de pomba para bem longe das misérias da vida. Perto da cama, dona Candinha e Josefa coxixavam, curvando-se para a doente. Transparecia a dor no corpo de ambas. Ernestina deu mais dois passos para adiante. Dona Candinha, percebendo-a, exclamou assustada. — Olha quem está ali! — rodearam Ernestina. Josefa enrolou-a no seu
chale, enquanto a viúva perguntava baixinho a Georgina, apontando o leito. — Morreu. — Não, mas... — Como se aquelas palavras lhe tivessem ensuflado nova vida! — Ernestina desembaraçou-se e os outros que procuravam retê-la e correu para a cama. Passaram os outros a vê-la, silenciosos e opressos. Dona Candinha cobriu-lhe de novo os ombros com o chale, mas o chale resvalava para o chão. A viúva curvada para a filha não dizia nada, nem se movia tão pouco. — Olhava, olhava, olhava.
Sarah tinha emagrecido muito e a sua cabeça redonda e forte parecia desproporcionada agora, emergindo de uns ombros estreitos de criança. Os olhos não tinham brilho, olhavam sem ver, e a boca entreaberta enchia-se de baba, que Georgina limpava de vez em quando, pacientemente. — A mãe parecia não compreender. Dona Candinha murmurou-lhe ao ouvido. — Quem é isso, Ernestina? Vá vestir-se. Luciana está aqui. — O que me importa? — Sarah? Oh, minha filha!
Sarah voltou-se para a mãe e arrastou umas sílabas embrulhadamente que ninguém pode entender. Pouco a pouco a viúva foi percebendo a verdade. A filha não morreria, mas estava idiota. Ao redor dela, todos calados, esperavam uma cena em que a dor explodisse em gritos ou a abatesse num desmaio. Nada. A viúva achava, apesar de tudo, uma consolação. A filha e, idiota, embora, respirava, deixava-se beijar. Estava nisso o seu resto de aventura materna. De
joelhos perto da cama, esteve longo tempo a olhar, a olhar. Ergueu-se com um suspiro e deixou que Dona Candinha lhe vestisse um penho ar de lã. Atou ela mesma, maquinalmente, os cordões da cinta, e as viaram os olhos da filha. Só depois de algum tempo foi que ela chorou, muito baixinho, embebendo as lágrimas no leço. Luciano tinha se afastado do quarto e passeava no jardim, fugindo aos olhos de todos e a bulha atormentadora das vozes. Subia e descia pelas ruas vagarosamente,
parando às vezes para afastar com o pé uma folha seca do caminho ou para esmagar entre as pétalas leitosas das flores e das laranjeiras. Os galhos carregados das árvores desciam muito, e as formiguinhas passeavam pelos troncos apressadamente, carregando folhinhas e salpicando de preto a brancura das folhas. Luciano contemplava aquilo tudo sem pensar no que via, mas vendo, sem pensar também em outra coisa. Cansado, subiu pelo pomar, dando volta pela horta,
meio inculta agora e abandonada. Por entre as largas folhas ásperas das abóboras que se alastravam, comendo vencedoramente a maior parte do terreno, erguiam-se os cálices altos das flores, a sua triunfante cor de ouro vivo. E ele notou com preguiça o desleixo em que o João tinha agora a verdura, toda abafada pela abóbora. Afinal de contas, é sempre a força bruta que predomina em a vida da natureza. As flores delicadas e franzinas que nascem para o perfume, como o coração da mulher
para o amor, caem e morrem se não lhes dá um amparo doce e cuidadoso. Luciano continuou até acima a torceira de bambus, onde vira pela primeira vez Sarah e Georgina, com outras amigas, jogando o croquet. Parou ali um momento com a lembrança daquele dia na memória. Teve saudades. Entrou depois no jardim e viu logo ali perto duas saracuras brigando sobre a grama de um canteiro largo. Ele chegou a sorrir, reparando para os meneios daqueles corpos delicados. Uma delas fez
lembrar Georgina na graça e na ligeireza. Subiu por fim ao terraço e, exausto, como se viesse de uma vez caminhadas, sentou-se num banco, encostou a cabeça à parede e olhou para a frente. A luz forte do sol envolvia tudo no seu manto glorioso e quente. O mar estendia-se sereno, muito azul, limpo de barcos, beijando as fitas brancas das praias longínquas e fronteiras. As montanhas recortavam limpido os seus enormes perfis bizarros num esbatimento de sombras e de luz. Embaixo, no pitoresco
outeiro da glória, tremulavam bandeiras de festa. Entre a casaria da cidade, lá uma ou outra janela batida de sol, despedia dos vidros chamas de incêndio e repicavam os sinos e havia em tudo um ar de alegria e de infinita doçura. Só ao longe temível no seu grandioso mistério, a esfinge silenciosa mergulhava parte do seu corpo de montanhas na água profunda, reguendo para o alto espaço, a sua fronte rochosa e altiva. Luciano quedou-se ali longo tempo, ora com os olhos fitos
nos galhardetes da igreja, ora nas fortalezas silenciosas ou nos despenhadeiros do morro, onde as paineiras abriam em sorrisos cor-de-rosa as suas grandes flores. Concluindo uma série de reflexões quaisquer, Luciano murmurou a meia-voz, levantando-se. Decididamente é de morrer solteiro. Está falando sozinho? Perguntou-lhe dona Candinha que havia chegado sem ser pressentida. Falei alto? Não admira, estou meio maluco. Respondeu ele sorrindo. É preciso cuidado, as paredes têm ouvido e...
Está tudo acabado. Para Ernestina e para a Sara, com certeza. E para mim. Isso duvido. Conheço os homens, as impressões neles não duram como em nós. Mas enfim, não é disso que se trata agora. Vim procurá-lo para dizer-lhe adeus. Já? De que se admira? Acho muito cedo. O senhor não se lembra de que eu sou casada e que de mais a mais hoje é dia santo? Ser dia santo não é razão? É, imagine, devo ter a casa cheia de gente. Acostumei-me a fazer dançar os sobrinhos nos dias feriados e tanto
eles como os empregados do Nunes contam com isso. Já que acudia as aflições de uns, é justo que divirta os outros. Contudo, senhor egoísta, repare bem, se me vou embora é porque Ernestina tem coragem única. Exigiu a minha retirada, bem como a de Georgina. De veras? Estássem calma? Perfeitamente. Disse que o que temia era encontrar a filha morta. A pequena reconhece-a. Coitadas. Que futuro triste. Ora, a tudo a gente se acostuma. Adeus. Vá ver-me de vez em quando. Consente que eu
venha? Não, o senhor pode ser preciso aqui. Dona Candinha ajeitou o véuzinho preto sobre seu rosto largo e desceu o jardim calçando as luvas. Luciano entrou. A Josefa esperava-o e disse-lhe logo o que ouviu com o modo embaraçado. Não vá lá dentro? Por quê? E aí, não quer? Ah, ela disse-lhe isso? Disse. Luciano parou indeciso, magoado, sem saber como falar a Ernestina, mas desejando ardentemente vê-la e beijar-lhe a mão antes de sair. Respeitava agora como a uma santa, amava-a com a ternura de um
filho. A Josefa observava-o com dó e com espanto. Ele continuava perplexo diante dela. Senhor quer mesmo falar com a Iaiá? Rompeu ela. Sim, quero. Espere um pouco, ela está sozinha. Georgina já foi para casa? Que mocinha boa. Eu fico morando aqui e a Iaiá quer que eu tome conta da casa. O que eu irei de fazer? Olha, eu ainda não disse nada, mas a Simplícia fugiu com Augusta enligada e o pior é que levou roupas finas e os talheres de prata. Que mulatinha levada. Aquilo
há de acabar rolando bêbada pelas ruas. A Ana já veio me dizer que exige mais ordenado? Ui, agora essa história de criadas é um inferno. Luciano interrompeu-a com um gesto. Eu já volto, disse ela e saiu. Ele ficou só, sentado no sofá, embaixo do retrato do comendador Simões. Passado algum tempo a Josefa tornou pressurosa. Então, inquiriu Luciano. Iaiá não quer vê-lo e pede para não voltar a esta casa. Dias depois, a viúva Simões acompanhava com a vista, do seu terraço de
ladrilhos cor-de-rosa, um paquete transatlântico que demandava a barra, levando Luciano para a Europa. O tempo estava esplêndido de um azul glorioso. O mar desenrolava o seu manto sem rugas, como a serenidade de sonho e as flores desabrochavam numa alegre ansiedade de luz e de vida, perfumando tudo. Ao lado da mãe, numa cadeira de rodas, Sara, com seu eterno e doloroso sorriso, fazia e desmanchava a única coisa bela que lhe ficara, a sua trança loura. Fim do capítulo 19. Fim de A Viúva Simões
de Júlia Lopes de Almeida. Gravado em maio de 2020 por Raquel Moraes. Muito obrigada por ouvir.