chevron_left All chapters Antologia de Discursos em Português home Home

menu_book Chapter 7

from Antologia de Discursos em Português by Various — automated transcript, may contain recognition errors.

Seção 7, de Antologia de Discursos em Português. Esta é uma gravação LibriVox. Todas as gravações de LibriVox estão em domínio público. Para mais informações ou para ser um voluntário, por favor visite LibriVox.org.

Primeiro é Catilinária, de Cícero. Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Quanto zumbará de nós ainda esse teu atrevimento? Onde vai dar tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te faça

nem as sentinelas noturnas do palatino, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bons, nem este seguríssimo lugar do Senado,

nem a presença e semblante dos que aqui estão. Não presentes, manifestos, teus conselhos? Não veis a todos inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente?

Onde estiveste? A quem convocaste? Que resolução tomaste? Ó tempos, ó costumes! Percebe estas coisas o Senado, o cônsul as vê,

e ainda assim vive, semelhante homem. Que digo, vive? Antes venha o Senado, é participante do conselho público, assiná-la e designa com os olhos para a morte a cada um de nós.

E nós, homens de valor, nos parecem ter satisfeito a República evitando as suas armas e a sua insolência. Muito tempo há, Catilina, que tu devias ser morto por ordem do cônsul

e cair sobre ti a ruína que há tanto máquinas contra todos nós. Porventura o insigne público e o cipião, Pontífice Máximo não matou a Tibério Graco por deteriorar um pouco o Estado da República?

E nós devemos sofrer a Catilina, que com mortes e incêndios quer assolar o mundo? Passo em silêncio aqueles antiquíssimos exemplos de quando Caio Servilho Arrala matou com sua própria mão a Espúrio Melo,

que procurava introduzir novidade. Houve antigamente na República esta fortaleza de reprimir em homens de valor com os mais severos castigos, seja o cidadão pernicioso que é o cruelíssimo inimigo.

Temos contra ti, Catilina, decreto do Senado veemente severo. Não falta conselho à República. Nós, abertamente o digo, nós somos os que faltamos.

Decretou antigamente o Senado que Lúcio Opimio atendesse a que a República não recebesse algum detrimento. Não se meteu uma só noite e meio que não fossem mortos Caio Graco,

de pai, avô e antepassados nobilíssimos, e Marcos Fúvio, consular, com seus filhos. Com semelhante decreto do Senado se entregou a República aos cônsuls Caio Mário e Lúcio Valério.

Por ventura tardou a República um só dia com a morte suplício a Lúcio Saturnino, tribuno do povo, e a Caio Servilho, pretor. Mas nós há já vinte dias que consentimos se embotem os fios desta autoridade.

Temos o mesmo decreto do Senado metido nas tábuas como espada na bainha. Segundo esta deliberação do Senado, Catilina, devias logo ser morto. Mas vives, e vives não para ceder,

mas para te confirmar no teu atrevimento. Desejo, padres conscritos, ser clemente para convosco. Desejo não ser cobarde em tamanhos perigos da República,

mas a mim mesmo me condeno de inerte culpado. Há tropas na Itália contra a República assentadas na garganta da Etrúria. Cresce cada dia o número dos inimigos, mas o seu capataz e general

o estamos vendo dentro de nossos muros, maquinando sempre a ruína da República. Se agora te mandasse prender, se te mandasse matar, mais receio que todos os bons dissessem

que o fizeram à tarde do que alguém que obrara cruelmente. Mas por certa causa não estou ainda resoluto a executar o que há muito devia ter feito. Matartiei finalmente, então,

quando ninguém houver tão malvado, tão perdido, tão teu semelhante, que não confesse que isto se obrou com razão. Enquanto houver quem se atreva a defender-te,

viverás. E viverás como agora vives, cercado de muitas minhas fortes guardas, para que não te possa levantar contra a República. Também os olhos e ouvidos de muitos,

sem tu o sentires, te espreitarão e guardarão, como até agora o fizeram. Portanto, Catilina, que podes mais esperar

se nem a noite com as suas trevas pode encobrir teus iníquos congressos, nem a casa mais retirada conter com suas paredes a voz da tua conjuração.

Se tudo se faz manifesto, se tudo sai a público, creme o que te digo, muda de projeto, esquece-te de mortandades e incêndios,

por qualquer parte te averemos as mãos. Todos teus desígnios são para nós mais claros que a luz, o que bem é reconheças comigo. Não te lembras do que eu disse no Senado

em 21 de outubro? Que Mânlio, ministro e sócio das tuas maldades, havia de estar armado em certo dia, o qual dia havia de ser o 26 de outubro? Escapou-me, pois, Catilina,

não só uma coisa tão horrível, mas nem ainda o dia. Eu mesmo disse que tu deputarás o dia 28 de outubro para a mortandade dos nobres.

Então foi quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de Roma, não tanto por se salvarem, como por atalharem teus intentos. Poderás, por ventura, negar-me

que naquele próprio dia, por estares rodeados de minhas guardas e das minhas diligências, te não pudeste mover contra a República? Quando, retirando-se os mais,

disseste que te contentavas com a minha morte? E quando esperavas tomar a preneste por assalto de noite ao 1º de novembro, não achaste aquela colônia municionada por minha ordem

e com meus presídios, guardas e sentinelas? Nada obras, nada maquinas, nada cogitas que eu não só não ouça, mas veja e penetre claramente.

Recorda-te, enfim, comigo desta última noite e conhecerás que com maior cuidado velo eu para o bem da República do que tu para a sua destruição. Digo, pois, que foste na primeira noite

pelos falcários para a casa de Marco Leca, e de falar claro, onde concorreram muitos sócios da mesma loucura e perversidade. Atrever-te, as, porventura, a negá-lo?

Por que te calas? Se o negares, convencer-te-ei, pois aqui estou vendo no Senado alguns que estiveram contigo. Deuses imortais, onde estamos?

Que República temos? Em que cidade vivemos? Aqui, Padres conscritos, entre nós, neste gravíssimo e santíssimo Conselho do Mundo,

estamos que meditam a minha ruína, a de todos nós, a desta cidade e do Universo. Eu, Conso, os estou vendo, lhes peço parecer. E a quem com ferro devia acabar

nem sequer molesto com a voz. Estiveste, pois, Catalina, naquela noite em casa de Leca, repartiste as regiões da Itália, determina-te para onde querias que cada um fosse,

elegeste os que deixarias em Roma e os que levarias contigo. Designaste os bairros da cidade para os incêndios, afirmaste que brevemente sairias de Roma, disseste que ainda demorarias um pouco

por estar eu ainda em vida. Achaste dois cavaleiros romanos que te livraram deste cuidado e te prometeram que, pouco antes de amanhecer,

me matariam em meu mesmo leito. Tudo isto soube eu, apenas acabado o vosso Congresso. Fortifiquei e municionei minha casa com maiores guardas.

Não recebi os que pela manhã mandaste assaldar-me, vindo os mesmos que eu tinha predito a pessoas de muito crédito que haviam de vir buscar-me naquele tempo.

Sendo tudo isto assim, Catalina, prossegue o que principiaste, vai-te em fim da cidade. Abertas estão as portas, anda? Há muito tempo te desejam, por geral,

aqueles teus acampamentos de Mânlio. Leva contigo todos os teus, ou menos muitos deles, limpa esta cidade. Já não podemos viver mais contigo,

nem eu o posso sofrer, tolerar, consentir. Infinitas graças devo dar aos deuses imortais e a esse mesmo Jupiter Stator, antiquíssimo protetor desta cidade,

de ter tantas vezes escapado a esta tão horrível, torpe e prejudicial peste da República. Não convém que, por causa de um homem, perigue muitas vezes a República.

Enquanto me armaste traições, Catalina, sendo eu côncil designado, não me defendi com guardas públicas, mas com diligências particulares. Quando nos próximos comícios consulares

me quiseres te matar, reprimi teus perversos intentos com o socorro dos amigos e soldados, sento muito algum. Enfim, todas as vezes que me acometeste,

pessoalmente te resisti, posto que vi-se andar a minha ruína, emparelhada com grande calamidade da República. Agora, já acometeste abertamente toda a República, os templos dos deuses eternos,

as casas de Roma, as vidas dos cidadãos. Em uma palavra, tocas a arruinar e destruir toda a Itália. Mas como não me resolvo ainda a pôr em obra

o principal e próprio deste império, executarei o que é de menor severidade e para o bem público mais proveitoso, pois se te mandar matar, ficará na República o demais esquadrão de conjurados.

Se saíres, como te persuado há muito, ficará a República limpa desta enorme sentina de teus sócios. E duvida porventura, Catilina, mandando eu fazer o que já executavas

de tua livre vontade? Manda o consul sair da cidade o inimigo. Perguntas-me se porventura para o desterro? Não te mando, mas se me consultas,

aconselho-te. Que coisa há ainda nesta cidade que te possa dar gosto, pois ninguém há que não te tema. Fora desta conjuração de gente estragada, ninguém há que não te aborreça.

Que nódua de torpeza doméstica se não tem lançado na tua vida? Que infâmia em matérias particulares se não tenha montoado sobre aqueles labéis? Que lacívia de olhos? Que atrocidade de mãos?

Que perversidade deixou jamais de haver em todo teu corpo? Que mancebo houve a quem não enredasses com atrativos viciosos e a quem não conduzisses ou para insolências com armas

ou para dissoluções com incentivos? E que é o que a pouco obraste quando com a morte da tua primeira mulher despojaste a casa para novas bodas? Não acumulaste sobre esse delito outra incrível maldade?

O que eu passo em claro e de boa mente sofro-se, Kali, para que não conste que existiu nesta cidade ou se deixou sem castigo tão enorme crime? Passo em silêncio a perdição dos teus bens,

que sabes-te estar iminente nos próximos idos. Não falo no tocante as particulares ignomínias de teus vícios nem na tua doméstica penúria e miséria, mas no que pertence ao governo da República e a vida e proveito de todos nós.

Pode, por ventura, Katilina, agradar-te a luz desta cidade ou este ar que respiramos, sabendo que nenhum dos circunstantes ignora que no último de dezembro,

sendo cônciles lépido e fúvio, estiveste armado no comício do povo? Que ordenaste uma esquadra para matares os cônciles e pessoas principais da cidade? Que não foi razão alguma o temor que tiveses,

mas a fortuna da República que conteve a tua protérvia e desaforo? Mas deixe já isto, que nem é ignorado, nem é muito cometido. Quantas vezes, estando eu já eleito,

quantas, sendo já côncil, me quiseres te matar? Há quantos golpes, atirados de modo que pareciam inevitáveis? Escapei eu, como lá dizem, com um pequeno desvio do corpo?

Nada fazes, nada consegues, nada maquinas que eu logo não saiba. E nem por isso cessas de levar por diante teus projetos e intentos. Quantas vezes te arrancaram já essa faca das mãos?

Quantas te caiu por acaso e escorregou? E ainda assim não podes estar muito tempo sem ela? Na verdade, não sei a que sacrifícios a consagraste e dedica-te, que julgas preciso cravá-la no corpo do côncil.

E que vida é ao presente essa tua? Falarei já contigo, não como agastado com a ira que devo, mas movido da compaixão que não mereces. A pouco chegaste ao Senado?

Em um tão grande congresso, qual de teus amigos e parentes te saudou? Não havendo memória que tal jamais sucedesse a ninguém? Esperas que te afrontem de palavra, sendo já condenado pelo gravíssimo juízo

desta taciturnidade? Que foi isto que assim que chegaste se evacuaram estas ordens de assentos? Que venha a ser que assim que te sentaste, todos os consulares que designaste para a morte

deixaram devoluta inua esta parte de assentos? Enfim, de que ânimo julgas levar isto? Por certo, que se os meus servos me temessem da sorte que a ti temem os teus patrícios, abandonaria sem demora a própria casa.

E tu ainda te não resolves a deixar a cidade? Se eu me visse tão gravemente suspeito e ofendido de meus cidadãos, antes quereria acarecer da sua presença, que sofrer que com tão maus olhos me vissem todos.

E tu, conhecendo pelo próprio remorso de teus delitos esta justa e geral indignação que há tanto mereces, ainda duvidas retirar-te da vista e presença daqueles que te não podem suportar nem ver? Se teus pais se temessem de ti e te aborrecessem

e os não pudessem sem nenhum modo aplacar, creio que te retirarias de seus olhos para outra parte. Pois agora que a pátria, mãe em comum de todos nós, te aborrece e teme, não julgando de ti outra coisa,

senão que meditas o seu parescídio, por que não respeitarás a sua autoridade, seguirás o seu juízo, temerás o seu poder? Ela é a que, como falando contigo,

te diz desta sorte. Muitos anos há que não houve maldade que não viesse de ti, nenhum delito sem ti, em ti só não se castigou a morte de muitos cidadãos, as opressões e roubos de nossos aliados.

Não só tiveste poder de infringir as leis e as causas, mas de as abolir. Ainda que tudo isto não se devia tolerar, ainda assim o sofri como pude. Mas o estarei toda em temor,

unicamente por teu respeito, o temer-se a Catalina com qualquer rumo os que haja, ou não se poder tomar conselho algum contra mim, que não dependa da tua protérvia, não se deve levar à paciência.

Portanto, vai-te já daqui, livre-me deste temor, se bem fundado, para não estar oprimida, se vão para deixar de temer. Se, como disse, a pátria te dissesse estas coisas,

não mereceria conseguir sua pretensão, ainda que a não pudesse conseguir com força, por que motivo tu próprio te foste entregar à prisão? Com que fim disseste, que por evitar suspeitas,

queria morar em casa de Marco Lépido, do qual não sendo recebido, te atrevesse a vir também comigo, pedir-me que te recolhesse em minha casa? E recebendo de mim, por resposta,

que em nenhum modo podia estar seguro contigo dentro das mesmas paredes, havendo grande risco ainda dentro dos mesmos muros, buscaste a quinto metelo, pretor, do qual repudiado,

passaste para a casa do teu companheiro, o excelente varão Marco Marcelo, a quem avaliaste de suma diligência para te guardar, de suma sagacidade para vigiar, e de sumo valor para te vingar.

Mas quão longe deve estar do cárcere e prisão quem se julga a si mesmo digno dela? Sendo isto assim, Catilina, não podendo aqui viver com um ânimo sossegado, duvidas ir-te para alguma terra

e entregar a fugida, uma vida salvada de muitos castigos justos e merecidos? Já que assim, desistu, propõe isso ao Senado. E se esta ordem resolver que vas para o desterro,

prometes obedecer-lhe? Não proporia tal, por desdizer de meus costumes, mas ainda assim o farei, para que saibas o que eles julgam de ti. Sai já de Roma, Catilina,

livre de temor a República. Se esperas por este preceito, parte já para o desterro. Pois que, Catilina, que atendes? Que consideras no silêncio dos circunstantes?

Sofrem, calam-se. Para que esperas que falem com autoridade aqueles que bem te dão a conhecer a sua vontade, calando? Se eu dissesse semelhantes coisas a este ótimo mancebo, públio céstio,

ou ao meritíssimo Marco Marcelo, já o Senado a mim consul me faria violência e com razão me poria as mãos. Mas quanto a ti, Catilina, quando se acomodam, aprovam.

Quando sofrem, determinam. Quando calam, clamam. Nem só estes, cuja autoridade amas e vidas desprezas, mas também aqueles honradíssimos cavaleiros romanos e os outros cidadãos de valor que rodeiam o Senado,

cujo concurso pouco há que pudeste ver, conhecer sua vontade e ouvir suas palavras, cujas mãos e armas há muito que mal posso conter, que vão sobre ti. Fá-se-o-me-é, persuadilos,

te acompanhem até as portas, como a quem deixa o que há muito deseja destruir. Mas para que falo eu? Para que te contenhas? Para que te emendes?

Para que cuides em fugir? Para que tragas ao pensamento algum desterno? Oxalá te meter sentau na cabeça os deuses imortais. Ainda que vejo que, se aterrado com estas minhas vozes,

te resolveres a desterrar-te, quanta tempestade de ódio virá sobre mim por causa da fresca memória das tuas maldades, se não for agora, ao menos para o futuro. Mas eu o estimo muito,

contanto que a calamidade seja particular e fique salva a República do perigo. Mas não há que pretender te faça um abalo teus vícios, que te amedrontem os castigos das leis, que cedas as calamidades da República.

Nem tu és sujeito de qualidade a quem o pejo desvia da torpeza, dos perigos, o temor, ou da insolência, a razão. Portanto, como já disse repetidas vezes,

vai-te daqui. E se, como dizes, porque sou teu inimigo me queres exasperar, caminha direito para o desterro. Grande tempestade de censuras e malquerenças

tenho que sofrer, se por mandado do consul fores desterrado. Mas eu os sofrerei. Porém, se não queres concorrer para o meu crédito e glória, sai com essa enorme quadrilha de perversos,

parte para Mânlio, subleva cidadãos perversos, separa-te dos bons, peleja contra a pátria, regozija-te com essa ímpia quadrilha,

de modo que não pareça te desterro para os estranhos, mas que os teus te convidam à sua companhia. Mas para que te convido eu, sabendo que já mandaste os homens que te esperam armados na praça Aurélia,

sabendo que com Mânlio tens aprasado o dia certo, e que remeteste adiante aquela águia de prata, a que levantaste altar em tua casa, a qual, creio, te há de ser funesta, a ti e a todos os teus.

Como poderás agora, indo a essas mortandades, carecer muito tempo daquela a quem costumavas venerar, de cujos altares passaste muitas vezes essa ímpia mão direita para o homicídio de cidadãos? Irás, enfim, algum dia,

para onde há muito te arrebata essa desenfreada e louca ambição, o que te não dá pena, mas gosto excessivo, pois para esse desvario te gerou a natureza, adestrou a vontade e guardou a fortuna. Nunca tu desejaste, antigo já ócio,

mas nem ainda guerra, e senão iníquua, agregando um exército de gente perdida e desesperada de toda fortuna e esperança. Que alegria não será ali à tua, com excessivo prazer, com que júbilo não folgarás loucamente,

quando nessa tua aluvião de gente não vires um só homem de bem? Para semelhante modo de vida se encaminharam aqueles teus laboriosos exercícios, que se contam de jazeres para executar e manter adultérios e abominações, velar não só para armar traições ao sono dos maridos,

mas também aos cabedais dos ociosos. Terás onde ostentar aquele teu ilustre sofrimento de fome, frio e penúria de tudo, com que brevemente te verás consumido. Tanto como isto aproveitei quando te excluí do consulado,

para que antes perseguisse a república deste errado do que a vexasse consul, e para que o que iníquamente empreendeste, mas se chamasse latrocínio do que guerra. Agora, padres conscritos,

para desterrar e repelir de mim uma quase justa queixa da pátria, concedei toda a atenção ao que vos vou dizer e o imprimi bem em vossos ânimos e memória. Se a pátria, pois, que amo mais do que a vida, se toda a Itália e toda a república me dissessem,

que fazes, Marco Tulio? Consente-se, vá embora, aquele que sabes ser inimigo, aquele que vês há de ser o general de uma iminente guerra. A quem sabes o esperam por seu capitão, os arraiais inimigos, o autor desta protérvia, o príncipe dos conjurados,

o sublevador dos servos, o arruinador das cidades. Parecendo deste modo, não que o lançaste fora da cidade, mas que o mandaste vir contra ela. Por que não o mandarás antes de se prender, matar e punir com o último suplício?

O que é que te impede? Porventura o costume dos maiores? Não sucedeu poucas vezes castigarem os particulares com pena de morte a cidadãos perversos? Porventura as leis que estabelecem o castigo de cidadãos romanos?

Nunca nesta cidade lograram fora os de cidadãos os que se rebelaram contra a república? Temes, acaso, o ódio da posteridade? Notável o agradecimento das ao povo romano, pois não sendo conhecido, se não pelos teus predicados pessoais,

sem nenhuma recomendação de antepassados, te elevou tão velozmente, por todos os graus de honra, ao supremo governo, se por atenção a ódio ou temor de algum perigo, fazes pouco caso do bem dos teus com cidadãos. E se algum temor tens de ódio,

não é mais para temer que aborreçam a cobardia e protérvia do que a severidade e valor? Porventura, quando a guerra solar a Itália, quando as cidades foram envexadas e arderem os edifícios,

parece-te que não arderas tu então no incêndio do ódio? A estas justíssimas razões da república e daqueles cidadãos que sentem o mesmo, responderei eu em poucas palavras. Se eu, padres conscritos, tivesse por mais acertado

condenar a morte a Catilina, não conceder a este gladiador uma só hora de vida. Porque se os outros heróis e nobilíssimos cidadãos se não contaminaram, mas honraram com o sangue de Saturnino,

dos grácos e de flaco, por certo não teria eu de recear que morto este paredida de cidadãos me resultassem daqui ódios para posteridade. E ainda que os visse iminentes sobre mim,

sempre assentei reputar por glória, malquerenças, resultados de obras de valor. Contudo, há alguns nesta ordem que eu não veem o que está para vir, ou se o veem, dissimulam.

Os quais fomentaram as esperanças de Catilina cumbrando as sentenças, e não dando crédito à conjuração, a arreigaram a nascença, cuja autoridade, seguindo outros muitos,

não só perversos, mas ignorantes, diriam, se eu o castigasse, que obrara com tirania e despotismo. Agora, porém, entendo, que quando eles chegar aos raiás de Mânlio,

para onde caminha, não haverá ninguém tão insensato que não conheça estar feita a conjuração, ninguém tão ímprobo que o não confesse. Mas morrendo ele só,

creio que só por um pouco se poderá reprimir as da ruína da República e não acabar inteiramente. Se der consigo daqui fora, levando de companhia os seus

e agredando de toda parte os desgarrados, os levar para o mesmo lugar, extinguir-se-á, não só esta enorme peste da República, mas a mesma semente e geração

de todos os perversos. Muito tempo há, padres conscritos, que andamos metidos nestes perigos de conjurações e traições, mas não sei por que causa os frutos

de todas as maldades e insolências brotaram em tempo do meu consulado. Se, porém, de tão grande corrupção for morto só este, entendo que só por um pouco tempo

ficaremos livres de cuidado e temor, e durará o perigo, e ficará reconcentrado nas veias e entranhas da República. Assim como os enfermos de doença grave,

que padecem frio e febre, bebendo água fria, ao princípio parecem ficar aliviados, mas depois se sentem muito mais aflitos, assim esta enfermidade da República.

Se aliviarmos com o castigo deste, ficando vivos os mais, se agravará com maior veemência. Portanto, padres conscritos, retirem-se os perversos,

separem-se dos bons, juntem-se a uma parte. Enfim, como já disse muitas vezes, dividam-se de nós com um muro, cecem de armar traições ao consul em sua casa,

de cercar a morada do pretor de Roma, de rondar com armas o Senado, de juntar feixes e arxotes para abrazar esta corte. Enfim, traga cada um escrito no rosto

o que sente da República. Eu vos prometo, padres conscritos, que tanta será em minha diligência, tanta em voz a autoridade, tanto nos cavaleiros romanos o valor,

tanta em todos os bons a concórdia, que com a retirada de Catilina tudo vejais manifesto, ilustrado, suprimido, vingado. Com estes prognósticos

e sumo proveito da República, parte já Catilina com essa tua pestilencial quadrilha de protervos, que se agregaram com todo o gênero de maldades e parescídios

para essa ímpia e execrã da guerra. Então, Xúpiter Stator, que aqui foste colocado por Rômulo, com os mesmos auspícios com que fundou esta cidade,

e aqui com verdade chamamos Stator desta corte império, o apartarás e a seus sócios de teus altares e templos, dos edifícios da cidade e seus muros,

das vidas e bens dos cidadãos, e a todos os inimigos dos bons, a todos os adversários da pátria, a todos os ladrões da Itália, juntos entre si,

com o vínculo de seus delitos e abominável sociedade, vivos e mortos, os castigarás com eternos suplícios. Fim da sessão 7.

CAPTIONS
Loading...